A ressaca literária
Um destes dias, não sei qual, um deles… vou iniciar um abaixo assinado
contra as trilogias, tetralogias, sagas de famílias, séries de livros…e o que
se segue dentro do mesmo âmbito! Assim, não dá!
Depois de ter desvendado todos os segredos dos 50 tons de
“Cinzento”, o que cobre um vasto leque de tons, caí, como tantas leitoras, numa
profunda ressaca literária.
-E agora?
Depois de tanto esforço para arrancar os segredos todos
de Christian Grey, senti-me perdida e sem perspetivas de leitura, o que é quase
escandaloso, dada a pilha de livros que
aguardam sua vez de serem lidos. Bom,
atendendo as minhas queixas e lamentos, uma alma caridosa deu-me um remédio:
Judith McNaught! E logo ali, na hora, sugeriu e proveu as minhas necessidades
de leitura. Apesar de ver tantas leitoras colocarem seus livros nos tops de
leitura, a verdade é que ainda não tinha me dado aquela curiosidade que nos faz
querer agarrar um livro e mergulhar no seu enredo. Fui simplesmente adiando.
Depois do absorvente Grey, pensei que algo mais light seria o ideal para me recuperar das aventuras do Quarto
Vermelho.
Comecei a tarefa de desvendar a Judith com “Em Busca do Paraíso” e encontrei uma
protagonista de que particularmente não gostei. Filha de um homem extremamente
dominador, deixa-se controlar por uma empresa e por um pai que, apesar de o
conhecer, lhe permite dominar a sua vida. Philip Brancrof, para além de
controlar a empresa controlou a vida de todos. É um personagem subterrâneo que
interfere na vida de todos os que com ele convivem. Meredith, a quem no início
dei o benefício da dúvida por parecer que se soltaria daquelas amarras, acaba
por se deixar manietar numa vida em prol da posição social e empresarial. Não procurou conhecer os pormenores que
afetaram a sua vida, a fuga da mãe e o afastamento de Farrel, contentando-se
com aquilo que lhe foi posto à frente do seu régio nariz, o que convenhamos,
saíndo do seu pai deveria levar logo um selo de Altamente Duvidoso. O
regresso de Mathew Farrell dá uma frescura à trama, dado o seu caráter tenaz,
mas que me deixou um pouco decepcionada, talvez porque esperava mais luta da
sua parte, mas gostei de ver como os seus antigos conhecidos e familiares são
integrados sem preconceitos na sua vida de empresário de sucesso. Até a
rebeldia de Lisa Pontini, de quem se espera algumas estripulias ao longo da
trama, acaba por se deixar domesticar pelo mundo de Philip Brancrof. Definitivamente, ainda não sei se
gosto do mundo dos negócios!
A minha segunda incursão foi através da família
Westmoreland, são três livros e um conto:
Um reino de Sonhos, Witney, meu
Amor, Até Você Chegar e Milagres. O primeiro situado numa
época recuada, medieval, em que os escoceses lutavam em apoio ao rei Jacob
e as aspirações de Henrique ao trono
inglês. Os escoceses ainda se
organizavam de uma forma bastante tribal em clãs, mal suportando os ingleses que caíam de
assalto nas suas terras. Assim se tomou, pela conquista e expulsão da familia
que o habitava, o castelo de Claymore; a união entre Jennifer Merrick,
escocesa, e Royce Westmoreland, inglês, vem dar origem à Dinastia Westmoreland.
Este livro de Judith MacNaught insere-se bem numa época de muitas guerras,
costumes duros em que as mulheres nobres se refugiavam e eram muitas vezes
enviadas para os conventos e abadias. Muitas por lá ficavam, princesas ou
filhas de famílias nobres européias, com dotes generosos que eram administrados
pelas ordens religiosas. Jennifer Merrick foi enviada para uma abadia como
castigo por ser voluntariosa e engenhosa. É raptada pelos ingleses que lutavam
contra os escoceses e levada ao Lobo Negro, implacável guerreiro e terror dos
escoceses, isto é, Royce Westmoreland, o primeiro duque de Claymore, e, mais
tarde, para o castelo de Claymore.
Mocinha decidida, cheia de artimanhas, personalidade e teimosia,
arrancou sorrisos e irritações do conde… e minhas. Depois de alguns tropeços
orgulhosos, acaba por conquistar a todos no castelo, assim como ao seu
cavaleiro. Está bem caraterizada a época das justas e dos torneios em que os
galantes nobres levavam a fita da sua dama.
O
segundo livro leva-nos à epoca da Regência, século XIX, pela mão de Whitney Allison Stone, de língua afiada e
tenaz na obtenção daquilo que pretende,
e de Clayton Westmoreland, duque de Claymore, um belo e libertino manipulador que tem de
suar a camisa para conseguir seduzir Whitney
através de métodos algo tortuosos.
É um clássico romântico de que gostei muito. No terceiro, Até Você Chegar, Stephen Westmoreland,
irmão de Cayton, Conde de Langford, para corrigir um erro enreda-se numa teia de enganos e mal
entendidos com Sheridan Bromleigh que
acabam por lhe valer um abandono no altar e alguns desgostos. É o tempo das
carruagens com brasões pintados puxadas por fogosos cavalos, festas e
divertimentos.
Para
rematar esta saga, um conto curto, Milagres,
ata as pontas de um personagem constante
nos dois livros anteriores Nicolas Du Ville, um outro sedutor amigo da duquesa
Whitney e da condessa Sheridan, e
Juliana Skeffington, outro personagem com aparição anterior. Julianna é uma irritada solitária que tem
que ser arrastada fora de seus livros, arranja um estratagema para se livrar de
um casamento indesejado com um Lorde e acaba por cair noutro, com Nicky Du
Ville. Há alguns pormenores que
interligam as histórias e a entrosam como uma saga familiar.
As moças são sempre sedutoras, com personalidade,
educadas fora dos parâmetros normais, instruídas , uma raridade na época,
românticas fugindo de casamentos impostos e negociados, lutadoras; mães
casamenteiras que perseguem os ricos nobres até os acossarem em Clubes
restritos, onde se refugiam. A ideia dos Clubes de cavalheiros (White) que
ainda existem, é genial: os homens escondem-se comodamente num local onde
poucos eleitos entram, têm total privacidade para jogarem e conviverem uns com
os outros, aí podem esconder as suas fraquezas desculpando-se uns aos outros,
servem muito bem de alibi para saídas menos desculpáveis aos olhos das esposas.
Tenho pena que as mães, tão cheias de expedientes para caçar os imprudentes
solteiros renitentes em casar, não tenham posto essa ideia em prática no
feminino.
Geralmente os romances desta época, desenrolam-se numa
sociedade muito hipócrita, hedonista,
enrolada em regras de boas maneiras capazes de matar toda e qualquer
espontaneidade nas donzelas que se veem exibidas como gado em bailes de
debutantes e festas na temporada londrina. Faz-me lembrar a época de caça aos
patos bravos ou perdizes… os homens casadoiros e ricos, particularmente nobres,
que são os mais visados, fogem desesperadamente. Apesar de mulherengos
assumidos são sempre benevolamente regenerados pelas autoras, tornando-os
apetecíveis às atarefadas mães casamenteiras … e a nós leitoras. Deslumbrantes
fisicamente, revestidos em pergaminhos, ricos em propriedades, experientes e
sensuais assumem-se no nosso imaginário como o supra sumo masculino, mas que só
existem aí, na nossa imaginação. Talvez por isso mesmo sejam tão
interessantes!!
Naquela sociedade
cheia de restrições, as jovens tinham de zelar pela sua reputação, maneirismos,
gestos e atitudes, beleza e vestidos, mas o motivo é direcionado sempre para o mesmo – o troféu
de um casamento conveniente - as mães
zelam pela virtude das filhas mas também visando o mesmo: projeção e ascensão
para a família. Ou seja, o casamento era o passaporte para a uma certa
liberdade sensual e um seguro de conforto e luxo. Nem sequer imagino a
trabalheira que deveriam ter na análise dos currículos sociais e financeiras
dos possíveis candidatos a genros. Penso que ter filhas na época da chamada
Regência era um verdadeiro pesadelo, então ser uma desafortunada mãe com meia
dúzia delas, tal e qual uma M.rs Benet, seria de prematuramente “branquear” as
cabeleiras. Os melhores partidos eram assolados por pragas de mães ansiosas em
despachar as incautas virgens. Eles vingavam-se na ironia e sarcasmo de quem
sabe que só tem que estalar os dedos para ter o leito aquecido e os berços
preenchidos.
Os lordes dos históricos de Judith McNaugth, não fogem a este
figurino, nem as donzelas que os conquistam, mas ela acrescenta inteligência,
picardia e personalidade às meninas e aos seus apaixonados, alguns duros e
marcados, outros arrogantes e cínicos, muita sensualidade naquelas experientes
criaturas, uma boa dose de aventuras e irritações de os fazer trepar pelas
paredes, muitas emoções e quezílias antes de finalmente terem direito ao
merecido descanso do viveram felizes para sempre. Salvaram-me ainda os
personagens secundárias, duquesa- mãe e que apesar de curtas aparições nos
mostram que ainda havia uns casamentos em que o casal viúvo ainda chorava o
seu/sua companheiro(a) desaparecida e uns amigos que casaram sem grandes ruídos,
porque sim, se amavam. Enfim, foi uma boa viagem no tempo, pelos livros e
histórias da Judith McNaught, bem contadas e criativas, bem inseridas na época
a que se reportam.
Pois, sim… curei a ressaca!
Para quem aprecia o género e gosta de sagas de famílias e
séries ficam algumas sugestões:
Agora e Sempre, Judith McNaught
Alguém para amar, Judith McNaught
Uma tetralogia
familiar, neste caso os Irmãos
Rothwell, escrita bem ao jeito de Judith McNaught, mas pela mão de Madeline
Hunter. Os irmãos são protagonistas de
histórias muito envolventes. Não sei se já foi publicada no Brasil, em Portugal
foi pela editora Asa e em boa
hora. Esta autora tem uma escrita primorosa, cheia de nuances e sensualidade a
leitura dos seus livros é uma leitura que envolve do princípio ao fim e nos faz
ir procurar o próximo volume. Aqui ficam os títulos:
Jogos de sedução, Madeline Hunter
Lições de desejo, Madeline Hunter
Regras de sedução, Madeline Hunter
Os pecados de Lorde Esaterbrook, Madeline
Hunter
E ainda em épocas mais medievais de guerras e intrigas politicas, a série Amantes
Indomáveis:
O Sedutor, Madeline Hunter
Casamento por Conveniência, Madeline Hunter
O Protetor, Madeline Hunter
Mil Noites de Paixão, Madeline Hunter
Numa vertente mais humorística:
A família Bridgeton de
Júlia Quinn em que a deliciosa Sra Bridgeton tem uma dura tarefa a
realizar: casar adequadamente oito rebeldes filhos, quatro rapazes e quatro
raparigas.
Nesta saga
familiar vamos encontrar, mais uma vez, uma coleção de solteiros, enfileirados,
homens doces escondidos por baixo de uma capa de altivez, armadura inevitável
para se livrarem de tantos convites explícitos e implícitos a um matrimônio
anunciado. A imagem do desfilar feminino, perante os olhos avaliadores dos
futuros angariadores, deixa-me deprimida até mais não ser!
Acho que até eu me envolvia em muitas capas de altivez
para enxotar tanta mãe casamenteira!!!
Estes cavalheiros
procuram acima de tudo ser felizes, a amizade que os une é contada com muito humor, os irmãos se digladiam e se amam ternamente, uma mãe
galinha muito matreira, umas donzelas que quebram a lista de regulamentos, com
língua afiada e muito humor nos diálogos, sempre à procura do amor. Dei por mim
a rir com algumas cenas, uma semente que aterra sempre fora do sítio aonde
deveria cair: Simon, numa guerra contra uma possível descendência, marcado
desde a infância por um pai imbecil -1º livro da série- a da picada da abelha
em Kate, a da noite de núpcias do Anthony e da Kate (2º livro da série) são
hilárias, assim como muitas outras ao longo do livro. É uma série
essencialmente divertida de ler. Em Portugal foi só lançado o primeiro volume, mas
é uma saga a não perder.
Maria






4 comentários:
Oi Maria, adorei o termo "ressaca literária", constantemente acontece isso comigo, como sou uma devoradora de livros e consequentemente adoro trilogias, sagas, etc chega num ponto de precisamos de uma desintoxição normalmente uso algum romance tipo florzinha Diana Palmer, Nora Roberts(aqueles bem antigos)e titia Judith e funciona bem... Bjos. Eliane
Eliane, ainda bem que temos esses "remédios" à mão para nos distrair de leituras mais pesadas ou densas, quer no enredo quer da escrita que o autor utiliza para por cá fora suas emoções e histórias. Querida bem vinda ao Clube das Ressacadas Literárias em Remissão (acabei de criar!!!) e obrigada por mais sugestões de "remédios" para quando a "doença" me atacar novamente. bs
Querida Maria, parabéns por mais um post maravilhoso!! Vc sempre consegue impressionar e fazer deste espaço um lugar especial!! Bjks, amiga!!
Ja querida, obrigada e beijos.
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