Numa das minhas incursões …
… pelo paraíso consumista dos amantes da leitura, deixei-me seduzir por umas luvas até ao cotovelo e uma renda de Bruxelas.
A minha fraqueza em alguns quesitos é assustadora!! As luxuosas rendas que adornaram os vestidos de noiva de Grace Kelly e Kate Middleton, realeza portanto, estavam ali em evidência numa capa de livro de uma autora que, apesar de já ter visto muitas vezes o seu nome, nunca me tinha convidado a desvendar os seus heróis.
Como da moça, só vemos o maxilar inferior e a
boca, rosada e bem desenhada, atirei-me a tudo o que era palavra na capa… pequena
frase, mas sugestiva de andanças em terras lusas:
“Ele é um aristocrata, um homem de sucesso e de poder.
Mas o seu coração ficou destroçado… em Portugal!”
(Uma noite de amor, Mary Balogh)
Daí
à compra foi um passo, e lá levei debaixo do braço a renda de
Bruxelas e a luva
de musseline (Será? Parece frágil para luva…) antecipando um
grande romance com
alguns olhos negros lusitanos… azuis… verdes talvez, numa tez entre
o moreno e
o branco, uma altura média, enfim, eu já levava a heroína pronta e
vestida de
rendas… mas… o romance entre um herdeiro inglês e uma mocinha
inglesa, que
começou nas montanhas portuguesas durante as invasões francesas
(… pois claro!
Mary Balogh, passou-me a perna!)… concluiu-se em
Inglaterra.Rejeitar um livro comprado com alguma ilusão, mesmo que se venha a verificar o contrário, é um desperdício e lá embarquei eu para Inglaterra na companhia da mal vestida Lily Doyle, justamente a interromper o casamento do… marido, Neville Wyatt, Conde de Kilbourne, com a perfeita e linda Miss Lauren Edgeworth. Ah, é dramático o início, mas ótimo para me fazer esquecer as elevações lusas e as tezes medianamente morenas!
Numa retrospetiva, somos convidados a viajar pelas memórias de Nev e Lily, vermos a forma como se conheceram, amaram e separaram em Portugal. Lily acaba por ser uma vítima da guerra, despojada e com marcas da violência que sofreu.
Apesar de sentir alguma ambivalência em termos das personagens, Lily conquista-nos pela sua aparente fragilidade e honestidade, Lauren pela dor que sente e é incapaz de mostrar, Neville pelo esforço e aceitação de Lily quando ela se depara com um mundo sofisticado onde tem dificuldade em se mover e ser aceite.
Valente,
determinada a ser digna do homem que ama, sensual, Lily dá a volta
às
dificuldades, sem abdicar da sua personalidade e
valores.
Conquista
a sociedade, reconquista o marido, conquista a família dele,
conquista o seu
futuro, conquistou-me a mim. A frágil Lily desabrocha como uma flor, e num
enredo cheio de mistérios, acaba por merecer o seu final
feliz.
Gostei muito do livro. Bem escrito, enquadrado na época das invasões francesas na Europa, em finais do século XVIII e início do século XIX, a autora soube dosear bem os mistérios ao longo do livro, acabando por fidelizar mais uma leitora…

A personagem de Miss Lauren Edgeworth, a noiva perfeita e rejeitada de Neville Wyatt é uma inteligente e enigmática mulher.
Se no livro anterior nos deixa de vez em quando com vontade de lhe chamar uns nomes menos simpáticos, em “A Summer to Remember” - Um Verão Inesquecível foi o nome do lançamento em Portugal -, neste deixa-nos rendidos. Afinal, trata -se de uma personagem insegura que se esconde por detrás de modos irrepreensíveis e uma figura perfeita ao ponto do aborrecimento.
Depois de uma proposta ousada feita por Kit Butler, Visconde de Ravensberg, talentoso sedutor, aterrado pela sombra de um casamento que não deseja, Lauren acaba por lhe pedir um verão que possa guardar para sempre e que valha por uma vida de aventuras que não viveu.
Cheios de ternura, vemos a descoberta que Kit vai fazendo de Lauren que acaba por retirar as capas que a escondem, para encontrar com uma mulher bela, sensual, baralhadora, sensível e cativante. De casamento combinado com Lady Freyja Bedwyn, Kit vai apresentar-se à família com uma noiva escolhida por si, mesmo que fictícia, apaixonar-se e convencer Lauren de que a vida tem muito mais para oferecer do que um verão de sonho. De experiência em experiência, vão partilhar corpo e alma. Kit vai conduzir e salvar Lauren, ela por sua vez vai restituir-lhe uma família e uma tranquilidade há muito perdida.
Delicadamente escrito, personagens cativantes, belo romantismo de protagonistas que passaram por …Portugal!
No livro "Um Verão Inesquecível" encontramos, pela primeira vez, a tribo Bedwyn, de Bedwyn House, cuja imagem de marca é um proeminente nariz adunco, muita arrogância e altivez aristocrática. Conhecemos a impetuosa Freyja, no polo oposto à perfeição de Miss Edgeworth e ficámos com uns vislumbres dos restantes irmãos: Wulfric, Aidan, Rannulf, Alleynne e Morgan. Serão eles os donos dos próximos livros desta série.
Não foi amor à primeira vista, acho que
gostei pouco dos Bedwyn e do seu altivo nariz. Não achei graça
nenhuma ao
monóculo de Wulfric, à impetuosidade de Freyja, à irreverência de
Rannulf, à
beleza de Aylleynne…
Um puro engano,
acabaram por me enrolar!
«se alguém lhe
pusesse um cubinho de
gelo na mão,
ficaria ali toda a vida
sem derreter-se».
Lady
Freyja depois de ter assentado um murro bem centrado
no maxilar ao irmão, uma forma ardilosa e fora do normal em se nos
apresentar,
fez-me arder de curiosidade e lancei-me à procura
dela.
Claro que a fui
encontrar de novo, em “Ligeiramente
Escandaloso”, a lançar um poderoso murro a Joshua
Moore, Marquês de Hallmere e a armar o maior
escândalo em Bath. Refrescante!

Gosto de personagens fortes que fazem a diferença entre os livros e as
histórias que narram. Daí mandei a ordem da série às urtigas e passei-me para o
campo da orgulhosa e impetuosa Free – Ligeiramente
Escandaloso (o quinto da série). Depois de ter sido rejeitada por Kit e sem vontade
nenhuma de dar parte de fraca e sofredora, parte para Bath. O encontro dela com
Josh na estalagem já pronuncia uma leitura agradável e plena de desmandos da
nossa virulenta amiga. Ela arma algumas confusões na estância balnear, devido à
sua falta de contenção, mas em contrapartida vamos ver o outro lado dela e por
que é tão amada pelos irmãos. Há uma faceta de sensibilidade que ela esconde de
todos, a leva a ser solidária com os necessitados, daí se tornar a aliada ideal
do Marquês de Hallmere, Joshua
Moore, para fugir às armadilhas que lhe
estende sua amada tia, mas é o orgulho aristocrático Bedwyn que a leva a enfrentar as situações
de nariz erguido como Cleópatra frente à investida de Júlio César. Não desiste,
não liga às convenções sociais, tem um braço potente…
" — Fora! - exclamou ela uma vez mais, com o braço elevado de forma imperiosa em direção da porta e dos três homens que ali estavam plantados.
— Fora agora mesmo!
O cavalheiro grisalho lançou um último olhar ansioso ao quarto, o tipo sem barbear a olhou com expressão lasciva pela última vez e o hospedeiro estendeu o braço diante de ambos para fechar a porta.
Freyja a olhou enquanto fungava com força pelo nariz, com o braço ainda esticado e apontando ainda com o dedo. Como se atreviam? Jamais havia se sentido tão insultada em toda sua vida. Se o cavalheiro grisalho tivesse pronunciado uma só palavra mais e o grosseirão sem barbear lhe tivesse lançado outro olhar, teria se jogado sobre eles e teria feito entrechocar suas cabeças com tanta força que estariam vendo estrelas durante uma semana."
… e encontra em Josh, o homem cujo humor a consegue levar e controlar…se é que alguém a controla, se ela não concordar.
Quase desejei ser Freija Bedwyn!
O Duque de Bewcastle, Wulfric Bedwyn, lidera esta irmandade. Considerado por todos um bloco de gelo, frio e insensível, enfaixado por todas as regras, convenções aristocráticas e reconhecimento dos seus pares, possui um porte, olhar e monóculo à altura da sua arrogância e altivez. O seu olhar gela qualquer inconveniência ou falta de cortesia, quase o vemos casado com uma princesa imperial com um nariz tão altaneiro como o seu, seguidos de muitos bedwynsinhos empertigados.
Nada mais errado.
Wulf vai perder-se de amores pela pessoa mais improvável, feliz e animada que o vai deixar arrasado quando recusa a sua proposta matrimonial – Ligeiramente Perigoso (oitavo livro). Christine Derrick não se deslumbra nem com o homem nem com o título. Dotada de uma energia e de uma luz própria, mete-se em situações caricatas que provocam hilaridade em todos, até nela mesma, menos no duque de Bewcastle que a considera completamente inadequada. Essa não será a opinião do restante clã! Assim que enfrenta o nariz ducal, cria uma legião de fãs na família que, armados em casamenteiros, vão conspirar para a incluir no redil. Pobre Wulf, mal sabe o que o espera…ou talvez conte com eles para a convencer!!
Um bocadinho de Wulf (espero que Sua Excelência não me gele por tão audaz familiaridade) e Chrissie:
"O monóculo voltava a estar em sua mão. Viu-o elevar ambas as sobrancelhas e compor uma expressão que sem dúvida seria capaz de gelar os cachos de uvas nas videiras e de arruinar a colheita de todo um ano.
Enquanto isso, deu-lhe outra mordida no biscoito... e teve que voltar a lamber os lábios. Deveria lhe pedir desculpas de novo?, perguntou-se. Mas por que? Já se desculpou em seu momento. Tinha o olho direito um pouco mais vermelho que o esquerdo? Ou eram imaginações suas?
— Seria amável de me dizer o que foi? -perguntou-lhe erguendo o monóculo um pouco mais, embora não chegou ao olho.
Que arma mais efetiva!, pensou. Conseguia interpor tanta distância entre o duque e os aborrecidos mortais como uma espada em mãos de um homem normal. Decidiu que gostaria de dispor de um. Talvez se convertesse em uma anciã excêntrica que contemplava o mundo através de um monóculo gigante, aterrorizando aos presunçosos e arrancando gargalhadas aos meninos por culpa de um horripilante olho magnificado.
Estava-lhe perguntando o que lhe tinha feito graça. "Graça" não era a palavra mais acertada, mas certamente se riu dele. Coisa que estava fazendo de novo."
Uma diversão de situações
protagonizadas
por Chrissie…
descritas com muito
humor.
Morgan Beldwyn - Ligeiramente Sedutor (livro 6) - a caçula e a beleza da família e Lorde Alleyne Bedwyn - Ligeiramente Imoral (livro 7) - vão encontrar-se em Bruxelas, perto de Waterloo.

Morgan, bonita, jovem, sensível, vai para Bruxelas com a família da sua amiga
Lady
Rosamond Havelock, filha do Conde de Caddick. A
sociedade londrina acorre a Bruxelas nas pegadas da cavalaria e dos regimentos
ingleses, liderados por Wellington, que se deslocam para combater Napoleão
Bonaparte. Aturdindo-se em bailes e jantares, a aristocracia ignora a guerra
que se prepara, acordando ao som dos disparos dos canhões e artilharia. Fogem
apressadamente, ficando Lady Morgan presa com os Caddick em Bruxelas. Aqui se
começa a descobrir a verdadeira personalidade de Morgan que arregaça as mangas
e se dispõe a ajudar os feridos que chegam num fluxo permanente.
Gervase Ashford, Conde do Rosthorn, encontra o nome Bedwyn num baile na figura de uma
bela jovem e resolve servir-se dela para por em marcha uma vingança contra o
Duque de Bewcastle. É nos bailes que se
conhecem e dançam a nova dança pouco convencional na época, a valsa.“A valsa não se concebeu para ser mecânica e monótona, com todos os casais girando em lenta e perfeita harmonia as umas com as outras. De modo que se dispôs a dançá-lo como sem dúvida foi concebido, com os olhos e a mente concentrados em seu par; com os ouvidos atentos à música de modo que a melodia e o ritmo impregnassem nele; com os pés dispostos a converter o ritmo em movimento.
Era uma dança sensual, concebida para concentrar a atenção de um homem em seu par e viceversa. Concebido para fazê-los pensar em outro tipo de dança, uma de índole muito mais íntima.”
É num cenário de guerra que
se tornam amigos.

“- Entre, chérie - lhe disse -. Virei pela manhã para me assegurar de que descansa.
- Obrigada - replicou ela -. O que fará esta noite, Lorde Rosthorn?”

Com um caráter
jovial e despreocupado, Alleyne Bedwyn (Ligeiramente Imoral), deixa a família desesperada ao desaparecer em Waterloo.
Perdida a memória, vai cair nas mãos de quatro damas muito
especiais e divertidas. Rachel York, uma delas, vai
ser a sua ligação à realidade. Vão auxiliar-se mutuamente e em colaboração com
as “damas”, de farsa em farsa, acabam por resolver os seus problemas.
O reencontro com um
trapaceiro em Bath, protagonizado pelas damas e acompanhantes arranca uns
sorrisos divertidos e o reencontro com os Beldwyn um comoção muito forte.
Apesar de na parte
central do livro esperar um pouco mais de suspense, há partes muito envolventes
e divertidas.
Foi uma leitura
muito agradável.
O cenário, onde
decorrem algumas cenas destes dois livros, é muito explicito e violento. Mary
Balogh não se limita a escrever bonitas histórias de amor, mas
transporta-nos
para espaços de dor, situações em que a miséria humana
decorrente das guerras é
bem visível. É num destes cenários que Rachel encontra Ayllenne nu
e despojado
de roupas, dignidade e
identidade.
“Era um homem jovem e seu cabelo parecia surpreendentemente escuro em contraste com a palidez de sua pele. A nudez era patética em extremo nessas circunstâncias, concluiu. Só era um despojo humano inerte com uma espantosa ferida em uma coxa e um atoleiro de sangue sob a cabeça, sinal de que tinha uma brecha aberta. Era o filho de alguém, o irmão de alguém, talvez o marido de alguém ou o pai de alguém. Sua vida teria sido preciosa para ele e possivelmente para muitas outras pessoas.”
A autora contrabalança o humor com a feia realidade, decorrente dos desejos de hegemonia do Homem. As personagens são reais, com as suas vulnerabilidades, forças, qualidades e defeitos que se expõem ao nosso olhar.
Em cada livro há um lago e
um espaço recatado de solidão nas
propriedades, onde se desenvolvem atividades amorosas privadas,
numa ligação do
sentimento à pureza idílica da natureza. O tema do amor é tratado
com delicadeza,
em que o erótico surge numa dose q.b., ligando o físico ao afetivo,
criando
momentos de ternura e partilha de corpos e almas.
Com toda a certeza não
vou deixá-los fugir!!

Maria






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