Sam e Kate, Michael e Terry.
Um conto de fadas que se transforma em pesadelo… e que volta a ser um conto de fadas, outra vez... amantes destinados a se reencontrar, apesar dos obstáculos que a vida lhes impõe.
Um romance onde os príncipes perdem o encanto... mas as princesas também.
Os Príncipes Azuis*...
Califórnia, 22 de maio de 1995
A flechada realmente existe?
No caso de Sam e Kate, eles a sentiram
no momento em que seus olhares se encontraram, numa tarde quente de maio,
enquanto a música dos Beach Boys tocava no rádio daquele bar de praia da
Califórnia.
Michael, o amigo de Sam, percebeu como
este olhava abobalhado para aquela garota loira que estava com um grupo, ao
fundo.
— Tem um corpo bonito? — Michael perguntou.
— Tem mais coisas do que você vê
– respondeu sem poder deixar de olhar para ela.
— Sam... não me assuste... o que está
havendo com você?
— Não sei, mas acho que me apaixonei.
— Meu Deus! – gritou Michael. —
Ar!... Ar!... Sam está com falta de
ar!
— Cale a boca, idiota – ele riu ao
comprovar que a garota também estava olhando para ele.
Não conseguia afastar os olhos daquela
garota, era linda. Tinha o cabelo loiro brilhante e doces olhos verdes que lhe
deixaram sem ar na primeira vez que a fitou. Estava encantadora com aquele
macacão jeans. E a camiseta branca ressaltava sua pele bronzeada.
— É a coisa mais bonita que já vi na
minha vida – murmurou estonteado.
— Não está mau – reconheceu Michael
depois de olhar a jovem de longos cabelos loiros.
Do outro lado do balcão do bar, Kate tampouco
podia deixar de olhar para aquele garoto. Não era a primeira vez que o via.
Mas, ao dar-se conta que ele também a observava, sentiu-se boba.
— Kate – perguntou Shalma – esse não é
o garoto da praia?
— Sim é ele... – respondeu depois de
tomar um gole da sua Coca-Cola.
— Ora, ora, está comendo você com os
olhos.
— Não é para tanto – respondeu Kate,
embora soubesse que era verdade.
— Menos mal, garota. Daqui a pouco o
curso termina e ele não se dá conta de você.
Shalma tinha razão. Kate o tinha notado
um mês depois de estar ali estudando. Mas ele sempre estava muito ocupado com
seus amigos, o surfe ou as garotas, para poder olhar para outros lados. Mas
hoje, sem saber por que, finalmente seus olhares se encontraram. Kate descera
para a praia muitas tardes e, sentada na areia, lendo, observava Sam surfar
sempre junto de seu amigo. Aquele garoto moreno que parecia sua sombra, embora
na realidade, não sabia exatamente quem era a sombra de quem. O certo era que
sempre estavam juntos, onde quer que os visse. Eles eram bons. Se os observasse
por tempo suficiente, comprovaria que sabiam muito bem o que faziam, quando
estavam no mar com suas pranchas.
Kate adorava vê-los. Eram atraentes e
se vestiam de um jeito descontraído. Deviam ter um metro e noventa, a pele morena
e o cabelo preto como o azeviche, que sempre usavam preso em um rabinho de
cavalo, e, como dizia Shalma, com um corpo musculoso e atlético que tirava o
fôlego. Seus sorrisos e aquele ar polinésio lhes tornavam especiais. Embora no
amigo de Sam talvez fosse ainda mais latente do que nele. Kate, acalorada,
deixou seu copo sobre o balcão e foi até o banheiro passar um pouco de água na
nuca. Estava tão nervosa que as mãos suavam. Ao sair do banheiro viu que alguém
se dirigia até ela.
— Está fazendo calor, não é?
— Sim – ela conseguiu responder ao ver
a quem pertencia aquela voz.
Sam não pensava em desperdiçar a
oportunidade de falar com ela.
— Oi, me chamo Sam Malcovich – sorriu
estendendo-lhe a mão.
— E eu sou Michael Talaua – disse seu
amigo. Mas ao ver a olhada que Sam lhe dirigiu, acrescentou em seguida: — E já
estava de saída. Adeus.
— Encantada – sorriu a jovem, e
cravando seus olhos em Sam, ela disse: — Meu nome é Kate Dallet.
Passaram-se os meses e a magia entre
Kate e Sam surgiu de uma maneira selvagem, como costuma ocorrer quando as
flechas do Cupido chegam ao coração. Muitas tardes, Kate esperava que Sam e
Michael terminassem de trabalhar na lanchonete, para então sair com eles, em
especial com Sam. Foram muitas as madrugadas nas quais Kate se aproximava da
praia para vê-los surfar. De início, Shalma lhe acompanhava, mas, com o tempo,
cansou-se e preferiu ficar na cama. Um dia, enquanto Kate observava o quanto se
divertiam surfando, decidiu que queria saber mais sobre esse esporte que tanto
os apaixonava, e quando Sam saiu da água e se deitou perto dela na areia,
disse-lhe:
— Eu gostaria que você me explicasse
mais coisas sobre o surfe.
— O que você quer que eu lhe conte? – fitou-a, enquanto as gotas de
água salgada escorriam provocadoramente pelo cabelo.
— O que você quiser – insistiu,
beijando-lhe.
— Ok, princesa – concordou ele, e
colocando o cabelo para trás começou: — Vou contar para você o que nos contava
Mahuto, um homem mais velho que vivia ao lado da nossa casa. Esse homem era um
antigo surfista e sempre nos dizia que o surfe era um dos esportes mais antigos
do mundo. Aparentemente, na antiguidade, os polinésios faziam campeonatos que
eram considerados duelos; amorosos ou de qualquer outra índole.
— Duelos? – Kate sorriu.
— O duelo consistia em pegar ondas nas
arrebentações mais arriscadas. Segundo nos contava Mahuto, era raro passar um
final de semana sem que acontecessem vários duelos. Contam que já no ano de
1770, o capitão James Cook descreveu em seu diário um estranho exercício que os
nativos das minhas ilhas praticavam, quando entravam no mar sobre suas pranchas
de madeira, e que chamavam de choroee, o que para eles significava «pegar
ondas», «cavalgar ondas», etc.… O surfe tem sido, desde sempre, um modo de vida
para nós, inclusive foram construídos templos, chamados Heyau, nos quais eram
deixadas oferendas, e o Kahuma, o feiticeiro da tribo, rezava para que viessem
boas ondas.
— Realmente rezavam para que viessem boas ondas?
—Sim, querida, já lhe contei que no
Havaí e nas ilhas o surfe é um modo de vida. Quer que eu continue?
— É claro. É muito interessante — Kate
assentiu.
— Quando o capitão Cook morreu, um tal
James King também escreveu sobre os havaianos e sua forma particular de
divertir-se, fazendo malabarismos perigosos e incríveis piruetas sobre uma
prancha no mar. Com o tempo, a igreja interveio. Não via com bons olhos aqueles que praticavam o
surfe, chegou a acusá-los de indecentes por praticá-lo meio nus. Por isso,
durante um tempo, aquele fenômeno chamado choroee, junto com a dança da hula,
foi duramente castigado e as pessoas deixaram de praticá-lo com a liberdade de
outros tempos. Mas como tudo nesta vida, sempre há alguém que ajuda para o
retorno das coisas boas, e surgiram movimentos havaianos que exigiram seu
passado e sua história de volta, e voltaram a dar ao surfe a importância que
sempre tivera na ilha.
Kate o escutava com atenção. Percebia
sua paixão quando falava de seu lar.
— Falaram de Hohn Papa Li, um homem que
escreveu sobre a prática daquele esporte, mas, sobretudo concentraram-se em
falar dos tipos de madeira que usavam para fazer aquelas maravilhosas pranchas,
tratadas com óleo e essências. George Freeth, mais conhecido como Brown
Mercury, foi um surfista meio irlandês, meio havaiano. Ele foi o primeiro a mostrar
ao resto do mundo o que era o surfe. Durante os anos em que viveu na
Califórnia, dedicou-se a ensinar a todos que quisessem surfar ao estilo
havaiano. Infelizmente morreu jovem, mas, para nossa sorte e para o surfe, em
sua memória, em Redondo
Beach , há um busto de bronze em cuja placa pode ser lida a
seguinte legenda...
— “O primeiro surfista dos EUA, o jovem
que recebeu a última arte da Polinésia, o Surfe” – destacou Michael, enquanto
se sentava junto a eles.
— Muito bem, irmão – Sam sorriu e
continuou. — Duke Kahanawoku, entre outros, criou o clube de surfe Hui Nalo, em Waikiki. Duke foi
campeão olímpico de natação em 1912 e em 1915 a Austrália convidou-o para visitar suas
praias, especificamente uma praia ao norte de Sidney. Ali compartilhou aulas de
surfe e construiu uma prancha de madeira de sequóia que ficou incrivelmente
famosa e que ainda se encontra no clube de surfe australiano que fundou ali. O
resto... você já pode imaginar. As pessoas começaram a praticar, embora, a bem
da verdade, nós havaianos somos os reis neste esporte.
— Não duvide – Michael sorriu ao ver
como se pavoneava na frente de Kate.
— É fascinante — Kate disse com um sorriso.
— Sim, o surfe é fascinante – Michael
respondeu olhando para o mar.
Na manhã seguinte, quando passaram para
pegar Kate, surpreenderam-se quando a viram esperando-os enfiada em uma roupa
de neoprene azul e com uma prancha embaixo do braço. Kate, ao ver seus rostos,
não pode reprimir um sorriso cúmplice.
— Sinto muito, garotos, mas já cansei
de observar. Vocês terão que passar um tempo me ensinando, eu também quero me
divertir, quero saber o que se sente quando “se pega uma boa onda”, como vocês
dizem.
— Puxa – sorriu Michael – muito bem
Kate, é assim que gosto de minhas garotas. Você não teria alguma irmã?
Kate riu e revirou os olhos.
— Esta é minha garota – se envaideceu
Sam, pegando-a pela cintura. — A cada dia estou mais louco por você. Venha,
vamos para a praia.
E assim começou a aprendizagem de Kate.
Os primeiros dias foram duros, o que mais fazia era engolir água e chafurdar
pela praia. Mas logo lhe ensinaram que, para ficar em pé sobre a prancha, tinha
que dividir o peso do corpo entre os dois pés e dobrar as pernas, e que o peito
devia cair para frente; explicaram-lhe o que era um take off, o pato, o tubo, e
como tinha que mover os ombros, no sentido em que a onda quebrava, para fazer
um bottom turn, e assim poder girar; aprendeu que antes de entrar na água
sempre devia verificar onde estavam as pedras, ou para onde estava indo a
corrente, ou como eram as ondas. Também lhe ensinaram que não devia
esperar até estar esgotada para então
sair da água, mas que devia fazer isso quando sentisse frio ou os primeiros
indícios de cansaço.
Praticando quase diariamente, com uma
enorme força de vontade que surpreendeu a ambos, Kate conseguiu aprender e, com
o tempo, começou a aproveitar. Então, toda manhã, qualquer um podia ver como os
três se dirigiam à praia com suas pranchas ligadas aos tornozelos e dançavam
com as ondas.
O curso acabou, chegaram as férias de
verão e cada um deles devia voltar ao seu respectivo lar. Kate, para sua
elegante casa em Nova
Iorque , e Sam, juntamente com Michael, para Oahu, uma das
ilhas do Havaí, onde tinham vivido e crescido e dividiam uma bonita casa em
frente ao mar.
Mas enquanto Kate voltava para casa com
sua abastada família, os garotos tinham apenas a eles mesmos. Haviam se
conhecido na casa de acolhimento para meninos sem lar de Oahu, e juraram que
jamais se separariam, coisa que até o momento tinham cumprido. Eram a única
família que tinham, e isso era importante para eles. Foram abandonados na casa
de acolhimento por circunstâncias diferentes, mas com um pano de fundo parecido.
No caso de Sam, inteirou-se de quem
tinham sido seus pais quando completou a maioridade: seu pai foi um inglês
chegado à ilha e sua mãe uma garota chamada Thalma, que foi rejeitada pela
família por ter-se apaixonado por um estrangeiro. O pequeno Sam ficou sozinho
no mundo quando seus pais morreram em um trágico acidente aéreo. Nem no Havaí,
nem em Londres, ninguém quis cuidar do menino de seis anos, e foi assim que ele
foi parar na grande casa amarela, onde uma encantadora Mamãe Daula lhe cuidou e
fez todo o possível para transmitir-lhe os valores de uma família.
Michael, por seu lado, só sabia que
seus pais tinham sido dois humildes
jovens nativos, e que quando sua mãe, pressionada pelo meio, levou-o
para a grande casa amarela, suplicou que lhe dessem o nome de Michael. Sabia
que sua mãe se chamava Thalia e que lhe tinha deixado a metade de um coração de
prata que Mamãe Daula lhe entregou ao cumprir dezoito anos.
Passaram-se os anos, e dentro das
possibilidades que Mamãe Daula lhes proporcionou, conseguiram terminar seus
estudos e, chegado o momento de ingressar na universidade, conseguiram
matricular-se em uma universidade pública onde cursaram direito. Sempre tinham
acreditado que aquela carreira lhes serviria para ajudar as pessoas que
conheciam, em razão de sua condição de vida.
Kate e Sam estavam desesperados. Era a
primeira vez que deixariam de ver-se durante uns meses, e isso partia o coração
de Sam. Kate começava a chorar só em pensar nisso.
— Vou ligar todos os dias – Sam
prometeu enquanto a beijava. – Lembre-se, amo você e vou amar todos os dias, e
não deixarei de pensar em você nem um só momento.
— Não me esqueça – Kate sussurrou,
fitando-o nos olhos.
Sam olhou para ela com olhos
apaixonados, e depois de dar-lhe um doce beijo nos lábios, murmurou:
— Você é o que tenho de mais lindo e
valioso, ainda que quisesse não poderia esquecer você.
E realmente não esqueceu.
Aquele verão ligou diariamente para sua
casa, trabalhou o que pode e quando estava há quase dois meses sem vê-la,
apareceu de surpresa em
Nova Iorque , numa manhã, com um enorme buquê de rosas
vermelhas. Tocou a campanhia da porta e quem a abriu foi Serena, a mãe de Kate,
que ao ver aquele rapaz atônito, com um rosto sério e um maravilhoso buquê na
mão, deduziu que era o Sam tão falado por sua filha.
Esboçando um sorriso cúmplice, chamou
Kate e esta, ao sair e vê-lo ali, lançou-se em seus braços e beijou-o sem
nenhum recato diante de sua mãe. A princípio Sam ficou pasmado, mas ao ver que
a mãe da garota os observava feliz, deixou cair o buquê, abraçou Kate e deu
graças aos céus por ter pego aquele avião.
Serena estava encantada em ver sua filha
tão feliz. Pode comprovar pessoalmente que aquele rapaz era tão maravilhoso
quanto sua filha lhe contara. Naquela viagem Michael o acompanhou, embora, a
princípio, tivesse disto a Sam que fosse sozinho a Nova Iorque. Mas este o
lembrou que nunca lhe havia deixado sozinho e que aquela não seria a primeira
vez. Assim que, embarcaram juntos.
Terry, a irmã mais nova de Kate, teve
que reconhecer que aqueles dois à sua frente eram tal e qual sua irmã lhe
contara. O que mais gostou neles era o quanto eram diferentes dos garotos que
conhecia em Nova Iorque.
Seus amigos costumavam ser filhos de
pais endinheirados que, de regra, se queixavam do que não tinham. Diferente
disso, Sam e Michael praticamente não tinham nada nem ninguém, a não ser a eles
mesmos, e com sua coragem e vontade de viver, seguiam adiante sem queixas.
Logo, deixou-se seduzir ao ouvi-los falar do surfe, de pegar ondas gigantescas,
do mar e dos céus estrelados. O que aos outros garotos parecia sem graça e
chato, como contemplar um céu estrelado com o som do mar ao fundo, maravilhava
a Sam e Michael.
Em seus dezessete anos Terry ficou
impressionada com Michael… era lindíssimo. Achava encantadores seus olhos
negros rasgados, que estavam cheios de vida, talvez os mais bonitos que já
tinha visto em sua vida. Os jeans sem nenhuma grife ficavam ótimos nele, e a
camiseta verde que usava junto com a jaqueta jeans, lhe caia melhor que em
qualquer outro.
***
Durante os anos seguintes, Sam e
Michael tomaram para si a tarefa de cuidar das três mulheres que entraram em
suas vidas. E quando terminaram a universidade, na mesma noite da graduação,
Sam pediu Kate em casamento e esta aceitou. Casaram-se em uma cerimônia mais do
que romântica. Sam levou-a em lua de mel ao Havaí, onde, orgulhoso,
apresentou-a a Mamãe Daula. Pouco tempo depois, Shalma, a melhor amiga de Kate,
casou grávida de um tipo que não tinha nada a ver com ela. Teve gêmeos e se
separou. Terry, a irmã sem juízo de Kate, depois de uma festa em Las Vegas e uma noite de
loucuras, amanheceu casada com um tal Morgan. Aquilo foi uma bomba para sua mãe
e um desgosto terrível para Michael.
Sam e Michael se fixaram
definitivamente em Nova
Iorque e terminaram por adaptar-se à frenética vida da
cidade, embora fossem muitas às vezes em que Kate os ouvia falar com saudade do Havaí, das
ondas, dos amigos que tinham deixado para trás, de Mamãe Daula...
Com muito esforço, Kate e Sam
conseguiram abrir seu próprio escritório de advocacia: Dallet & Malcovich.
Uma firma que logo teve sucesso, mas que lhes exigia muita dedicação, trabalho
e energia.
Depois de umas semanas que tinham sido
especialmente estressantes para ambos, Sam e Kate decidiram ter uma noite livre
para os dois.
— Estou esgotada – suspirou Kate,
tomando um relaxante banho em sua banheira redonda —, não faço mais que dar
voltas no caso Preston.
— Querida – respondeu Sam, com duas
taças de champanhe na mão —, esqueça do escritório agora —. E tirando a roupa
para se enfiar na banheira com ela, disse: — Pense que só eu e você estamos
aqui, ouvindo Barry White com duas taças
de champanhe, e que temos toda a noite.
— Ora – sorriu ao ver as intenções de
seu marido. – Está me propondo algo, Sr. Malcovich, ou é minha imaginação?
— Venha aqui e eu lhe conto –
respondeu-lhe com um sorriso malicioso.
Kate deixou-se beijar. Tinham se
passado seis anos desde o começo de seu relacionamento, mas a paixão não havia
minguado.
— Adoro quando você sorri assim – ele
sussurrou.
— Adoro fazer amor com você assim... —.
E sem deixá-lo dizer mais nada, Kate sentou-se escarranchada sobre ele na
banheira e, depois de pegar seu pênis úmido e escorregadio entre as mãos,
encaixou-se e começou a mover-se ritmicamente. — Gosto de sentir você, e saber
que está dentro de mim. Gosto de ver como o desejo invade seu rosto e seus
olhos, e gosto de saber que é você quem me deixa assim.
— Princesa, você me deixa louco –
suspirou Sam com a sensualidade de sua mulher, e pegando-a pelos quadris,
ajudou-a a subir e descer enquanto todo ele enlouquecia de prazer.
Aquela noite, depois de terem feito amor
várias vezes, primeiro na banheira e depois na cama, enquanto descansavam nus
sobre a cama, Sam pediu a Kate:
— Querida, dê-me uma aspirina de sua
mesa de cabeceira.
—
Está com dor de cabeça? – perguntou preocupada.
—
Sim, um pouco – disse ele sorrindo.
Kate abriu a gaveta da mesa de
cabeceira e encontrou um pacote embrulhado em papel de presente vermelho, com
um laço dourado.
— Mas… o que é isto? – perguntou,
fitando-o.
— Feliz aniversário, querida – sorriu
ao comprovar que ela levava a mão até a boca, em sinal de esquecimento.
— Sam, eu esqueci. Não tenho perdão.
— Não se preocupe. Eu lhe perdôo — ele falou, rindo disso, porque na verdade não
se importava que ela tivesse esquecido. — Agora abra e diga-me se você gosta.
Com um sorriso nos lábios e maldizendo
sua falta de jeito, ficou perplexa ao ver o anel tão lindo que acabava de
aparecer quando abriu a caixinha. Era um anel de ouro com as iniciais de ambos
em pequeninos diamantes.
— É lindo! – gritou colocando-o em
seguida, e depois de dar um beijo em Sam, sussurrou no ouvido dele: — Obrigada,
querido. Obrigada por me amar tanto. Obrigada por cuidar sempre de tudo...
obrigada.
E voltaram a fazer amor com a doçura
que o momento exigia. Um tempo depois, levantaram-se para tomar uma ducha
rápida.
— Vou abrindo a torneira – disse Kate,
dirigindo-se para o banheiro. — Querido,
estou com sede. Você poderia trazer-me água da geladeira?
— Saindo uma água – respondeu Sam.
Quando abriu a geladeira, viu uma jarra
na qual estava pendurado um pequeno envelope com seu nome. Ele não percebeu que
Kate o havia seguido pé ante pé até a cozinha, e estava apoiada na porta,
desejosa de ver sua reação. Sam olhou surpreso para o envelope, abriu-o e ao
ler o que continha, não acreditou.
— Feliz aniversário, amor – Kate sorriu.
Ao ouvi-la, Sam voltou-se para sua
mulher e, aproximando-se, beijou-a como um louco.
— Vamos ser papais? – perguntou
aturdido.
— Sim, amor. Dentro de seis meses e
meio, exatamente. Você está contente? – Kate perguntou, rindo muito ao ver como
tremiam as mãos de seu marido.
— É a melhor notícia que já me deram na
vida – sorriu abraçando-a.
— Pensei em comprar alguma coisa para você pelo aniversário. Mas depois pensei
que a notícia do bebê era o melhor presente que podia lhe dar.
— Você é uma feiticeira – ele sorriu –
e me fez acreditar que havia esquecido. Em seguida, olhando preocupado
perguntou: — Você está bem? Quer alguma coisa?
— Calma, querido. Está tudo bem. O
médico disse que tenho de levar uma vida normal, não sou a primeira nem a
última mulher que vai ter um filho.
— Um bebê – repetiu Sam, pensando que
lhe daria todo amor e felicidade que ele não tivera. — Vamos ter um bebê, querida.
E como quando se é feliz o tempo voa,
aqueles seis meses e meio passaram rapidamente. Sam achava sua mulher linda com
aquela barriguinha, e embora ela se queixasse de estar gorda e disforme, ele a
adorava exatamente como estava. Quando o ansiado dia chegou, a bolsa de Kate
estourou e Sam ficou tão nervoso que quando saiu para o hospital fechou a porta da casa com Kate dentro, rindo
muito. Meia hora mais tarde chegaram ao hospital, de onde Sam ligou para
Michael, Serena e Terry que, ao receberem a chamada tão esperada, voaram para o
hospital. O parto foi longo e doloroso, mas à 1h50min da madrugada veio ao
mundo Catherine Dallet Malcovich, uma linda menina morena, que pesava três
quilos e seiscentas gramas, e mostrava a todos que tinha excelentes pulmões,
pois não parava de chorar.
Dois anos depois nasceu Olivia Dallet
Malcovich, pesando três quilos e duzentas e cinquenta gramas, e igual a sua
irmã, também possuía ótimos pulmões.
Nova
Iorque, 22 de maio de 2010
Os anos passaram. As meninas cresceram
e a firma prosperou até transformar-se em um dos escritórios de advocacia mais
famosos de Nova Iorque. E Sam conseguiu o que sempre havia querido: uma grande
família. Sua sogra vivia com eles, e também Terry, sua cunhada, que foi
convidada por Sam depois do divórcio.
Terry hesitou, mas chegou à conclusão
de que vivendo com eles sempre teria comida na geladeira e roupa limpa. Com o
tempo tornou-se uma fotógrafa famosa, que viajava muito, e uma mulher de
personalidade, sempre cercada de caras irresponsáveis que ela manipulava ao seu
bel prazer. Mas se havia algo que Terry fazia bem era viver a vida. Após seu
fracasso matrimonial, decidiu dedicar-se a ser feliz e a não pensar no amanhã.
E isso ela fazia muito bem.
De sua parte, Kate, com os anos, se
aburguesou muito. Sempre estava impecavelmente vestida com roupas Armani, Gucci
ou Versace, pois não permitia que em seu guarda roupas entrasse nada que não
tivesse grife. Tornara-se uma implacável e temida advogada, que se destacava
por sua dureza, eficiência e audácia nos julgamentos. Esse era, agora, seu
estilo de vida. E ela gostava. Mas foi precisamente a ousadia o que lhe faltou
em sua vida pessoal ao cometer um terrível erro, que Sam conseguiu perdoar...
— Vovó, vovó, você pode vir aqui? –
disse Catherine, a filha mais velha que chamavam de Cat.
— Um momento – respondeu Serena. — Já vou.
— Tia Terry! – gritou Olivia, a menor
que chamavam de Ollie. — Venha você
também!
Ambas subiram até o quarto onde as
esperavam ansiosas duas garotas que fecharam a porta logo que entraram.
— A que se deve tanto segredo? –
perguntou Terry, sentando-se na cama.
— É para mostrar-lhes os presentes que
temos para papai e mamãe por seu aniversário, o que acham?
Com um gesto orgulhoso, mostraram os
relógios, um masculino e outro feminino, de prata com a esfera em branco.
— Minhas meninas, são lindos! –
exclamou Serena, fitando-as com doçura.
— Têm uma dedicatória na parte de trás
– comentou Olivia feliz.
— Eles ficarão encantados – concordou
Terry. – Tenho certeza absoluta.
— Estivemos poupando um ano para poder
comprá-los, mas valeu a pena – Cat comentou alegre.
Cat era parecida com seu pai, alta e
morena, embora tão temperamental quanto sua tia Terry. Olivia, ao contrário,
era loira como sua mãe e tinha uma personalidade doce e conciliadora. Uma
mistura perfeita de seus pais.
— Onde estão minhas meninas?! – Gritou
Shalma, aparecendo com seus dois gêmeos, que já estavam uns homens.
— Tia Shalma! – gritaram as meninas,
correndo para abraçá-la.
— Meu Deus! Como vocês puderam crescer
tanto?
— Mas tia Shalma, se você nos viu ontem
– sorriu Ollie.
— Dá no mesmo, querida, vocês crescem a
cada minuto – depois de cumprimentar Terry e Serena, continuou. – Que festa vão
organizar no aniversário de seus pais!
— Vai ser muito divertido – respondeu
Cat. — Venha, temos que lhe mostrar algo.
E Shalma as seguiu divertida, ao vê-las
tão felizes. Terry voltou-se para os gêmeos, Anthony e John, sorriu e disse:
— Meninos, que grandes vocês estão, mas
quantos anos têm?
— Dezoito – respondeu John, enquanto
Terry observava o modo como Anthony olhava para Cat, que subia as escadas até
seu quarto em companhia de Shalma e Ollie.
— Ah, Deus... parece que foi ontem que
troquei suas fraldas – comentou com um sorriso.
— Tia Terry – protestou John ao
ouvi-la.
Serena, emocionada e feliz por ter a
todos a quem amava ao seu lado naquele dia, pegou Anthony pelo braço e enquanto
saiam para o jardim acrescentou:
— Meus quatro netos são divinos. Os
mais lindos.
Quando os meninos viram Sam e Michael
entrar, foram rapidamente até eles. Adoravam-lhes. Nesse momento, olhando para
sua amalucada filha Terry, Serena perguntou:
— E você, querida? Algum namorado no
horizonte, desses tão bonitos que lhe procuram?
— Nem posso pensar – sussurrou, dando
uma boa olhada em Michael. – A propósito, já lhe contei que vou à Espanha no
próximo mês?
— Oh... Espanha, que maravilha! Com
quem você vai?
— Vamos em oito, minha amiga Lana,
Ariadna, Sherryl, John, Alfred, Silvie, Andrew e eu. Vamos visitar Sevilha, que
nos disseram ser linda.
Serena não pode deixar de esboçar um
sorriso terno. Terry era vivaz, alegre e maravilhosa, apesar de muito sem juízo às vezes, e apontando-lhe o
indicador murmurou:
— Acho muito bom que você viaje, mas
filha, tenha cuidado com o que faz e não vá retornar casada outra vez.
— Mamãe! – Terry de uma risada,
beijando-a.
— Estão distribuindo beijos? –
perguntou Sam, aproximando-se com uma expressão malandra.
Sem esperar um segundo, Terry se atirou
nos braços do cunhado. Ele era o melhor.
— Oi Michael, querido – cumprimentou
Serena sorrindo, enquanto observava Terry e Sam brincarem um com o outro,
porque Sam tentava morde-la no pescoço.
— Oi Serena – respondeu Michael,
enquanto morria de vontade de ser quem estava mordendo o pescoço daquela
maluca.
Entre ele e Terry sempre tinha existido
algo especial. Uma tensão sexual não resolvida que somente se permitiam
demonstrar quando soava uma canção muito especial. Apenas nesses momentos,
enquanto dançavam, sem palavras e apenas com o olhar fixo um no outro,
falavam-se com paixão. Mas quando a melodia acabava, voltavam à vida real e
fechavam com cadeado qualquer possibilidade de um relacionamento.
— Saia... insuportável! – gritou Terry
sorrindo enquanto observava Michael pelo canto do olho e notava o quanto estava
bonito com seu traje Armani.
— Como está minha cunhadinha preferida?
– comentou Sam, fazendo-lhe cócegas.
De repente ouviu-se um golpe.
— Agora muito bem – disse Terry que
acabava de levar Sam ao chão com um
movimento de caratê, enquanto Anthony, John e Michael caiam na risada.
— Terry! – Serena gritou ao ver Sam,
com todo o seu tamanho, estendido no chão. – Filho, por Deus, levante-se! Você
está bem?
— Bravo – Michael aplaudiu. – Irmão,
você recebeu o que merecia.
Erguendo-se do chão teatralmente, Sam
começou a mancar.
— Puxa... puxa, cunhadinha, vejo que
está prosperando com suas aulas.
— Claro que sim. E como você pode
comprovar, aprendi um método muito bom para me livrar dos chatos.
Em seguida, aproximando-se dele,
estendeu-lhe a mão:
— Deixe de fazer teatrinho que eu
conheço você. Mas será que você não vai mudar nunca?
Sam ia responder, mas, subitamente
ouviu a voz de Kate que saía para o jardim, impecável em seu vestido bege e o
cabelo preso em um coque alto.
— Espero que não.
Todos olharam para ela e sorriram. Kate
parecia uma deusa inalcançável; lindíssima e elegante. Após aproximar-se
rapidamente de seu marido e beijá-lo, dirigiu-se ao morenaço que estava ao seu
lado.
— Oi Michael. Mmmm… que bonito que você
fica com esse Armani. Como vai tudo?
— Obrigado, linda. Fico feliz que goste
do meu traje —. E olhando para Terry murmurou: — Mas aqui estou assustado com sua irmã e,
desculpe-me, mas quem quer que se aproxime dela...
Terry revirou os olhos enquanto Kate se
dirigia aos filhos de Shalma e lhes dava um abraço.
— Olá, tesouros, me alegro que tenham
vindo.
Momentos depois chegaram Shalma e as
meninas que, emocionadas, abraçaram seu pai e seu tio Michael. Os homens de
suas vidas.
Aquela foi uma noite cheia de emoções.
Jantaram todos juntos no jardim e não puderam deixar de se comover quando as
meninas entregaram o presente que sonhadoramente tinham comprado para os pais.
Estes não conseguiram conter as lágrimas ao ler a inscrição:
“Que
seu amor seja eterno.”
Kate, ao olhar a sua volta e ver-se
cercada de toda sua família, sentiu-se a mulher mais feliz do mundo. Sabia, no
entanto, que tudo aquilo não existiria sem Sam, o garoto por quem se apaixonou
enquanto o observava surfar nas ondas e o homem forte que soube dar-lhe uma
oportunidade quando ela havia falhado com ele. Desde aquele percalço, suas
vidas não voltaram a ser tão idílicas como antes. Mas se os dois tinham certeza
de alguma coisa era que se amavam e desejavam seguir lutando por sua família.
Kate, comovida ao ver todos tão
felizes, não pode evitar sorrir. Tinha uma mãe admirável, uma irmã invejável,
os amigos Michael e Shalma que eram como irmãos, sobrinhos encantadores, filhas
que eram dois tesouros, e um marido maravilhoso, bom e paciente, que ela
considerava um verdadeiro príncipe encantado.
...
também desbotam
Filadélfia, 8 de junho de 2010
— Papai, papai, venha. Tommy não me
deixa pegar meu ursinho.
— Tommy – Samuel repreendeu
carinhosamente. — Largue o ursinho de Sasha, você tem seus próprios brinquedos
ali.
— É inútil – protestou Nicole – por
mais que eu fale não me dá ouvidos. Vai continuar pegando tudo de Sacha.
Nicole se agachou e após pegar o menino
no colo com carinho, levantou-lhe a camiseta e mordeu-lhe a barriguinha. Tommy
era um bebê de vinte meses e riu ante o que sua mãe lhe fazia.
— Tudo para você, boneca – disse Samuel
para a filha de quatro anos. —
Mamãe vai levar Tommy para tomar banho. Aproveite e brinque tranquilamente.
— Eu também quero tomar banho – exigiu
a menina que correu atrás de sua mãe.
— Samuel, querido, preciso de uma
mão! — gritou Nicole do banheiro.
Meia hora mais tarde todos estavam
escorrendo água, mas riam enquanto brincavam com os filhos.
No dia seguinte, Samuel regava o
gramado de seu pequeno jardim quando encontrou entre os arbustos um brinco de
ouro. Sorriu ao reconhecê-lo. Era de Nicole e ele o havia presenteado no dia em que Tommy nasceu.
Certamente ela o havia perdido na noite
anterior, quando, depois de colocar as ferinhas dos filhos para dormir, eles
decidiram tomar um banho de piscina e acabaram fazendo amor no gramado. Feliz,
guardou o brinco no bolso do jeans no momento em que soava o telefone. Após
fechar a torneira da mangueira, entrou em casa para atender a chamada.
— Alô.
— Samuel, é Natasha. Bom dia, como vão?
Ao ouvir a voz azeda de sua sogra,
sentou-se e sorriu. Sua sogra era uma russa fria que, normalmente não tinha
muita vontade de conversar. Especialmente com ele.
— Bem, tudo bem – respondeu esfregando
a nuca.
Sem variar o tom, a voz da mulher
exigiu:
— Diga a Nicole que pegue o telefone.
— Ela não está. Saiu com as crianças
para comprar sorvete e ainda não voltaram. Você queria alguma coisa em especial?
Irritada por não poder falar com sua
filha a mulher sibilou:
— Queria saber de vocês. Faz dois dias
que não telefonam.
— Natasha, – Samuel sorriu – não se
preocupe. Se acontecer alguma coisa ruim você saberá em seguida. De qualquer
forma, quando Nicole chegar, direi a ele que ligue para você.
— Está bem. Diga a Nicole que me ligue.
Adeus.
Ato contínuo, desligou e Samuel,
convencido de que ela não mudaria nunca, fez o mesmo. A relação entre eles não
era muito boa. Natasha não entendia que sua filha tivesse preferido o amor de
um americano ao de um homem russo. E menos ainda que tivesse tido filhos com
ele e que vivesse em pecado.
Apesar de Natasha estar vivendo na
Filadélfia há quinze anos, continuava pensando que nada americano podia ser
bom; nem sua Coca-Cola, nem sua Pepsi, e, claro, não queria nem ouvir falar em
hambúrgueres ou qualquer outra coisa que considerasse produto americano. Assim
que, quando soube da existência de Samuel, quis morrer. Aquele americano, pai
de seus netos, nem mesmo vivia na Filadélfia em tempo integral, mas estava em
casa, com sua filha, apenas alguns dias a cada quinzena. Além disso, nenhum dos
dois queria passar pela igreja e, menos ainda, dar explicações a Natasha sobre
seu estilo de vida. Nicole e ele desejavam viver assim e isso lhe deixava enraivecida.
Naquela tarde, quando Nicole voltou
para casa com as crianças, Samuel lembrou-lhe que devia telefonar para sua mãe,
e, como era de se esperar, desanimado, ouviu-a discutindo. Depois de desligar,
Nicole foi diretamente para a cozinha para tomar um copo d’água. Falar com sua
mãe era tão difícil que lhe deixava a boca seca do nervoso que lhe dava ao ver
que era impossível fazê-la pensar de
modo razoável. Samuel, paciente, aproximou-se dela e segurando-a pela cintura
perguntou-lhe:
— Vamos ver, querida. O que aconteceu
agora?
Deixando o copo sobre o balcão de
pedra, ela disse, contrariada:
— O de sempre, Samuel. Minha mãe é
odiosa. Eu a amo porque é minha mãe, mas ela é cruel comigo.
Resignado, beijou o pescoço da
jovem tentando tranquilizá-la.
— Não fale assim, conte-me e veremos o
que se pode fazer – murmurou.
De mãos dadas sentaram-se no sofá e
Nicole expôs o problema para ele.
— Na quinta-feira, dia dezesseis,
chegarão alguns primos da Rússia e ficarão aqui por duas semanas. Vão se
hospedar na casa da minha mãe e ela quer que eu fique lá com as crianças. Não
quer que saibam que vivo com um homem sem estar casada.
— Hahaha! – riu Samuel ao inteirar-se
das ideias de Natasha. – E as crianças, quem serão? Os filhos do vizinho?
— Samuel, não me deixe mais irritada –
gritou Nicole.
— Certo, tudo bem... você tem razão.
Desculpe, foi uma idiotice dizer isso.
Desesperada, a jovem suspirou e,
afastando a franja do rosto, comentou:
— Não querido. É normal que você diga
algo assim. Com as crianças não há problema. Diz que, apesar da desonra por eu
os ter tido solteira, os ama e os defenderá diante de quem quer que seja. Mas
já inventou uma história de que meu marido e eu nos separamos e ele vive em
Houston.
— Minha nossa!
— O que não quer é que meus primos
saibam que você existe e menos ainda que vivo em pecado com você.
Irritado com toda a farsa que aquela
mulher absurda queria montar, perguntou:
— Mas como seus primos vão saber que
você vive em pecado, se eles não sabem como é sua vida aqui?
Sem graça, Nicole confessou:
— A última vez que estivemos na Rússia,
minha mãe inventou que eu estava casada.
— Isto é incrível – respondeu
incrédulo. – Estou surpreso. O que sua mãe pretende, realmente?
— Não quer que você apareça na casa
dele durante o tempo que meus primos estejam aqui.
— Caramba! – ele bufou.
— Eu lhe disse que nem pensar. Eu não
renego a você, nem a minha vida, porque o amo e sei que me ama. Temos dois
filhos lindos, uma bonita casa e um futuro pela frente. Mas então ela me disse
que se não faço o que quer, devo esquecê-la e que não vai querer saber mais
nada de mim. E o pior de tudo, Samuel, é que me faz sentir culpada.
— Culpada?
Ela assentiu e murmurou: — Sinto-me
culpada por tê-la decepcionado. Sinto-me culpada por ela não estar na Rússia.
Sinto-me culpada porque a vida lhe tirou primeiro meu pai e depois minha irmã.
Sinto-me culpada de tantas e tantas coisas que eu...
— Isso é uma bobagem – cortou Samuel
abraçando-a. – Você não pode sentir-se culpada por nada disso, ela é quem
deveria sentir-se culpada por tratar você como trata e por ser tão pouco
compreensiva com sua felicidade —. E ao ver o desespero nos olhos da jovem,
acrescentou: — Olhe, vamos fazer uma coisa. Seus primos vêm no dia dezesseis e
ficarão até o dia dois, certo?
— Sim.
— Você sabe que devo partir no dia
dezoito, não é? – ela concordou. – Então, adianto a viagem alguns dias e não
volto até que tenham ido. Vamos, bobinha, façamos feliz a sua mãe. Fique com
ela esse tempo e assim lhe demonstramos que, apesar de se comportar como uma
bruxa conosco, ela é importante para nós mais do que pensa.
Com um sorriso maravilhado ela fitou-o
e sussurrou enfeitiçada por seu encanto:
— Você é tão bom, que às vezes penso
que não o mereço.
— Vamos, ligue para ela, faças as pazes
e diga-lhe o que me contou e que irei até sua casa com uma faca de cozinha para
cravar naquele coração duro e...
— Samuel! – Nicole riu. – Não seja
tolo.
Solucionado aquele problema, passaram
um ótimo dia em família, como ele gostava. Foram a um pequeno parque de
diversões e se desfrutaram vendo seus filhos se divertirem nos brinquedos.
Dias depois, chegaram os esperados
familiares da Rússia. Os dias que passaram juntos foram uma bênção para
Natasha, mas aquelas férias acabaram e eles voltaram para suas casas. Após
deixá-los no aeroporto, se encaminharam para casa, as crianças iam sentadas e
presas em suas poltronas, adormecidas. Nicole conduzia e Natasha estava ao seu
lado.
— Mamãe, não fique triste. Eles
disseram que vão voltar.
— Eu sei. Mas não acho que voltarão amanha,
nem no mês que vem. Quem sabe, com um pouco de sorte, venham dentro de dois
anos – respondeu Natasha com os olhos molhados pelas lágrimas.
A jovem assentiu. Sentia pena de sua
mãe por estar tão longe de sua terra. Tinha proposta a ela, centenas de vezes,
que regressasse para sua família, mas nunca havia aceitado. Gostasse ou não, o
fato de sua filha ter fixado raízes na America a prendia àquele continente.
— Mamãe, realmente, não se preocupe.
Você vai ver como o tempo passará rápido e logo virá tia Vietrina outra vez.
Sem sequer sorrir, a mulher olhou com
malícia para a filha e perguntou:
— Você acha que Andrey também vai
voltar?
Nicole suspirou. Não deixara de notar
como sua mãe e sua tia Vietrina procuravam que, a todo momento, o amigo de seu
primo, Andrey, estivesse perto dela. Por isso, advertiu:
Vou gostar que volte. Sempre e quando
não seja eu a razão.
— É um homem maravilhoso... russo! E
solteiro!
Sem querer discutir ela acrescentou:
— Andrey é um homem encantador e estou
certa que na Rússia lhe espera alguma mulher.
— E por que não pode ser você esta
mulher? – perguntou Natasha aborrecida.
— Mamãe, não vamos começar. Eu sou
feliz com minha vida.
Incapaz de se calar, a mulher sibilou
com amargura:
— Feliz... feliz com sua vida? Como
você pode dizer isso?
A paciência de Nicole começou a
fraquejar e, consciente de que sua mãe nunca a deixaria tranquila com aquele
assunto, protestou.
—
Mas o que acontece com você, Mamãe? Não vê como estou satisfeita com
Sam? Ou por acaso lhe incomoda que eu seja feliz com ele?
— Esse americano não é homem para você.
— Pois sinto muito Mamãe, mas amo esse
americano e minha vida a conduzo eu. Não você.
— Oh, Nicola. Como pode dizer isso? ...
esse homem não convém a você.
— É sempre a mesma coisa. Samuel é
maravilhoso com todos. Até com você. E antes que solte algo que me aborreça de
verdade, quero que saiba que se aceitei morar com você nesses dias, foi porque
o americano que você tanto detesta, convenceu-me para que não você não ficasse
chateada comigo por que...
— Você me envergonha, Nicola... me
envergonha! – a mulher cortou com desprezo.
— Chega, Mamãe! – Gritou Nicole
descontrolada. Não conseguia aguentar mais. — Como você pode ser tão cruel? Não
se dá conta de quem tem de aceitar Samuel sou eu e não você? Você está mal,
Mamãe. Acho, sinceramente, que você gostaria de ver-me outra vez sozinha e
infeliz.
— Mal? O que quer dizer? Acha que estou
louca? – gritou Natasha atônita.
—Você é quem esta louca por aceitar e se conformar com as migalhas dos outros
e...
— Cale-se, Mamãe, cale-se! – gritou
Nicole com os olhos fora das órbitas, enquanto Sacha, desde seu assento
traseiro abria os olhinhos ao ouvir os gritos.
— Não tenho vontade de calar-me! Você
não quer ouvir, mas é uma prostituta! – gritou Natasha.
— Cale-se! Nem mais uma palavra, Mamãe!
– rugiu Nicole olhando para sua mãe e desviando a atenção da estrada.
No instante seguinte, depois de uma brusca guinada, o carro começou a
dar voltas na autoestrada até que um caminhão o deteve com um enorme estrondo.
Passados alguns momentos de silêncio total, apenas se ouviu o pranto de uma
criança... e pouco depois o som das ambulâncias.
Nova Iorque, 2 de julho de 2010
— Bom dia, filha – Serena cumprimentou
Terry.
A jovem, entrando na cozinha, bocejou.
— Bom dia. E antes que diga alguma
coisa, sim, estou acabada! Uff.. os anos não passam em vão.
— Tia, você está com uma péssima cara –
Cat sorriu-lhe, sabendo que tinha estado em uma festa. – Não dormiu bem?
— Fique quieta, irritante – respondeu
rindo. – Algum dia você vai pedir que eu lhe de cobertura.
Kate apareceu neste momento, impecavelmente vestida com seu
traje e seu cabelo preso em um coque Baixo.
— Vai dar cobertura a quem? – e ao ver
o aspecto de sua irmã, acrescentou: — Terry, por Deus, você está péssima.
Convencida de seu aspecto desastroso,
olhou-se no espelho e praguejou ao ver a realidade cruel.
— Meu Deus, estou horrível!
Soou a campanhia da porta. Era Michael.
Chegava para o café da manhã, como todos os dias.
— Bom dia, lindas – cumprimentou com
alegria e olhando a jovem que afastava o cabelo do rosto, acrescentou em tom de
brincadeira: — Terry, você, como sempre, está fantástica.
— Lembro a você – protestou com um
sorriso – que meu estado lamentável é culpa sua. Eu lhe disse vinte vezes que
já estava na hora de voltar para casa, mas você dizia a todos ‘venha a última!’
e tomamos muitas últimas.
Incapaz de afastar os olhos dela,
murmurou divertido:
— Mas você está tão linda, dançadeira!
— Vamos, coma algumas nozes. Quer? – e
estendeu-lhe um pratinho.
— Terry, pelo amor de Deus! – gritou
Serena divertida. – Afaste as nozes de Michael, agora mesmo.
Com seu bom humor habitual, ele sacudiu
a cabeça e lhe disse:
— Olhe como você é má. Quer que eu coma
mesmo sabendo que sou alérgico a nozes. Quanto mal você me deseja!
Aquelas tolices e flertes entre eles
eram algo a que todos tinham se acostumado. Mas sabiam que não era nada mais
que isso. Não se permitiam. Em todos aqueles anos o único que conhecia os verdadeiros
sentimentos de Michael era Sam. Mas, por respeito a seu irmão, jamais comentou
com ninguém.
Após servir-se de café, Michael
aproximou-se novamente de Terry.
— Sempre lhe disse que quando não se
maquia fica mais bonita. Embora já saiba... – prosseguiu piscando o olho para
Cat —… ainda que a macaca se vista de seda, continua macaca.
— Falou o orangotango – ela respondeu
divertida.
Serena, que desfrutava cada manhã com
os números daqueles dois, caiu na gargalhada.
— Meninos, não conseguem dizer algo
mais bonito?
Divertidos, eles se olharam e Terry,
dando-se por vencido, acrescentou:
— Não entendo como, tendo ido para a
cama às cinco da manhã, você possa estar tão refrescado e bonito. São oito e
meia!
— Mmmm… Você me chamou de bonito?
«Você está mais que bonito», Terry
pensou, mas em vez disso respondeu, sem poder tirar o olhar dos lábios dele:
— Sim – concordou, sem afastar-se.
Depois de lhe fitar como somente ele
sabia fazer, Michael rompeu a magia do mento, enquanto Serena, Kate e Cat
tomavam o café da manhã sem tirar o olho deles.
— Que corra o ar – disse ele
finalmente. – Com certeza você contou a elas que lhe ensinei a dançar merengue?
Terry sorriu e sentiu um formigamento
no baixo ventre ao recordar como ele a segurou, na noite anterior, e a
pressionou contra seu corpo enquanto mexia os quadris.
«Merengue
daria eu a você, morenaço».
— Uff... que calor – disse ao limpar a boca.
— Merengue? Eu também quero aprender –
disse Kate sorrindo.
Sabia o quanto Michael era festeiro e
divertido, que levava um ritmo de vida frenético.
— Por Deus, um café – exigiu Terry
separando-se dele – e que levem este daqui. Tenho que ir trabalhar e não sei
como vou agüentar acordada todo o dia.
Ouviu-se o telefone ao fundo. Kate
levantou para atendê-lo, mas deixou de tocar. Dois segundos depois entrou Ollie,
mas se deteve ao ver sua tia e antes que pudesse dizer alguma coisa, Terry
interveio:
— Já sei, querida, estou horrível.
— Por que você diz isso? – perguntou
Ollie, pegando-lhe o cabelo. – Eu acho que você está ótima.
— Obrigada pela injeção de ânimo,
querida – respondeu, beijando sua sobrinha.
— Mamãe, no telefone tem um senhor
perguntando por papai – comentou Ollie para a mãe.
Kate levantou-se. Saiu da cozinha onde
todos começaram a comentar o novo e terrível aspecto de Terry. Uma vez na sala,
Kate pegou o telefone.
— Alô?
A voz de um desconhecido respondeu:
— Bom dia. Procuro por Samuel
Malcovich.
— Sam não está – mentiu Kate. Ele
estava no banho. – Quem deseja falar com ele?
— Peter Crowne, da 63ª Delegacia da
Filadélfia.
— Filadélfia? O que aconteceu?
— Desculpe-me, Senhora, mas falarei com
Samuel Malcovich.
— Sou sua esposa. O que aconteceu?
— É com relação a um acidente de
trânsito.
Surpresa e sem entender nada, Kate
perguntou:
— Um acidente? Que acidente?
Mas aquele homem continuou:
— Senhora, em nossos arquivos consta
que o Mitsubishi Montero, de placa Filadélfia 8789 DLB, em nome de seu
marido, sofreu um acidente, há duas horas, na autoestrada A-22, no sentido de
Filadélfia.
— Desculpe-me, Sr. Crowne –
interrompeu-o. – Mas nós não temos um Mitsubishi. Acredito que está se
equivocando.
— Samuel Malcovich Talabuki, mora aí? –
perguntou ele de novo.
— Sim. Sim... Sam, vive aqui.
— Sinto muito, Senhora, mas então não
me equivoquei. Seu marido figura como proprietário do carro e beneficiário do
seguro, preciso falar com ele urgentemente.
Confusa, Kate conseguiu dizer.
— Deixe-me seu número de telefone e seu
nome – respondeu solícita, enquanto pegava um papel e uma caneta. — Assim que o
vir direi que lhe chame.
Quando desligou o telefone seu estômago se contraiu. Sam
viajava todos os meses para a Filadélfia, mas não sabia que havia comprado um
carro lá. Sem saber se subia ou não até o quarto onde seu marido estava
terminando de se vestir, voltou à cozinha onde todos riam.
— O que houve? – perguntou Serena.
— Nada, uma chamada para Sam.
Kate pegou a cafeteira com mão trêmula,
preparou um café com leite e, após desculpar-se, subiu para o quarto. Uma vez
ali, deixou o café sobre a mesa auxiliar que havia ao lado da janela. Quando
Sam saiu do banheiro, encontrou-a de costas, imóvel, olhando pela janela.
— Bom dia, amor – comento
aproximando-se dela para beijar-lhe no pescoço.
— Bom dia.
— Aconteceu alguma coisa? – perguntou
Sam observando-a.
Kate quis dizer-lhe que sim. Mas sem
saber por que, preferiu mentir e indicando o café, respondeu:
— Não, querido. Tome o café antes que
esfrie.
Ele dirigiu-lhe um sorriso encantador,
tomou o café e voltou a olhar-se no espelho para colocar a gravata.
— Michael já chegou? – pergunto
enquanto ajustava o nó da gravata.
— Sim, chegou faz um tempo. Está lá
embaixo, brigando com minha irmã, como sempre.
Sam sorriu, mais que brigando, ele a
estava ganhando pouco a pouco, e Terry estava entrando no seu jogo sem saber.
Tinha que perguntar-lhe como fora a festa, Apesar de que, conhecendo Michael e
Terry, certamente que haviam se divertido muito. Voltando-se para Kate
perguntou:
— Querida, o nó está certo?
Mas Kate já não estava ali. Havia pego
a taça de café vazia e saíra silenciosamente, absorvida em seus pensamentos. Ao
chegar à cozinha, ouviu sua irmã dizendo que tinha um encontro às 10h30min para
uma sessão de fotos para a empresa Brouruma.
— Ouça, linda – perguntou Michael
olhando para Kate – O chato do seu marido vai descer hoje? Às onze horas tenho
que estar no Tribunal. Tenho o julgamento dos Blaster.
— Não vai demorar – tentou sorrir. –
Estava às voltas com a gravata.
Nesse momento Sam entrou na cozinha.
— Bom dia família.
— Oi, papai – responderam Cat e Ollie
olhando-o com adoração.
— Venha, chato – suspirou Michael. –
Você demora mais que uma mulher para se vestir.
Sem, seguro de si mesmo, olhou para a
sogra com ar divertido.
— Mas o resultado é bom, não é? Tenho
dois julgamentos hoje.
— Você está imponente, garotão –
respondeu Serena com cumplicidade. Eles se adoravam. – Hoje você ganha os
julgamentos. É preciso saber combinar tudo, a elegância no vestir e a elegância
no falar, e você, querido – disse levantando-se para lhe dar um beijo na
bochecha – tem tudo isso.
— Uff... quanta adulação vejo por aqui
– brincou Michael e olhando para Kate, perguntou: — Está pronta?
Mas Kate, desde aquela estranha chamada
estava imersa em seu mundo.
— Vão vocês. Eu irei em meu carro.
Tenho que dar uns recados antes de ir para o escritório. Hoje não tenho nenhum
julgamento.
Sam, despreocupado, mordiscava uma
torrada que sua filha Ollie lhe havia oferecido.
— Serena, lembre a Teresa para buscar
meus ternos na lavanderia. Amanhã tenho de viajar para a Filadélfia e vou
precisar deles.
— Fique tranqüilo, filho, estarei
atenta a isso.
Kate, distraída, deu um beijo nos
lábios de seu marido, pensando no que ele tinha dito por último, e observando-o
enquanto saía: viu quando Sam subiu no Chevrolet Camaro de Michael e
desapareceu entre o tráfego. Pouco depois, Cat e Ollie se dirigiram para a
escola, e Serena e Kate ficaram sozinhas.
— Quais seus planos para hoje? –
perguntou para a filha enquanto observava seu rosto preocupado.
Era raro vê-la sentada na mesa da
cozinha. Sempre era a primeira a sair correndo para o escritório. Serena se
aproximou dela.
— Kate, querida, você está bem?
Assentiu, esboçando um tímido sorriso e
em seguindo ergueu-se da mesa a caminho do seu quarto.
— Sim, mamãe, perfeitamente bem – disse
em um fio de voz.
Meia hora mais tarde, Kate conduzia seu
carro em direção ao aeroporto.
Na Filadélfia, na 63ª Delegacia, ao ver
que Samuel Malcovich não entrava em contato com eles, voltaram a chamar para
sua casa. Nessa ocasião, Teresa, a empregada, ofereceu o telefone do
escritório.
— Bom dia, escritório Dallet &
Malcovich, com quem deseja falar?
— Bom dia, com o Sr. Samuel Malcovich,
por favor.
Após esperar alguns instantes, uma nova
voz respondeu:
— Alô.
— Procuro pelo Sr. Samuel Malcovich.
— É da parte de quem?
— Peter Crowne, da 63ª Delegacia da
Filadélfia.
— Um momento, por favor.
Elora, a secretária de Sam, chamou-o
pelo telefone interno. Neste exato momento Sam se preparava para sair do
escritório.
— Peça que deixe o telefone. Ligarei
logo mais.
Sam pegou sua pasta e enquanto
organizava os papeis que levaria para o julgamento, o telefone tocou novamente.
— Desculpe, Sr. Malcovich – disse
Elora. – Mas o Sr. Crowne insiste que se trata de um assunto importante. Algo
sobre o acidente de um Mitsubishi.
Sam sentiu o sangue congelar, ficou
paralisado, mas respondeu com firmeza.
— Certo, passe a ligação – e
sentando-se, respondeu com um fio de voz. – Bom dia, Samuel Malcovich falando.
—
Bom dia, Sr. Malcovich, meu nome é Peter Crowne – repetiu pela quarta
vez naquela manhã. – Estou telefonando porque seu carro sofreu um acidente.
Conseguimos localizar o Senhor, graças aos documentos que estavam em seu nome.
— Por favor, conte-me o que aconteceu?
Nicole e as crianças estão bem? – perguntou nervoso.
Sem querer revelar mais da conta, o homem
disse:
— Seria melhor que viesse até a
Filadélfia. Só posso dizer-lhe que estão no Hospital Meison.
— Sam foi invadido por uma angústia
atroz. Um calor terrível entrou por seu corpo e sem poder evitar, insistiu: —
Está certo, eu irei, mas, por favor, responda-me, eles estão bem?
O Sr. Crowne sabia por experiência que
era melhor não alarmar, assim que se limitou a repetir.
— Sinceramente não sei, Sr. Malcovich.
Sei apenas que deve vir o quanto antes.
Com as mãos trêmulas, Sam conseguiu
dizer:
— Pegarei o primeiro vôo. Irei
diretamente ao hospital.
Ao desligar o telefone todo ele tremia.
O que havia acontecido a Nicole e às crianças? Nesse momento a porta de seu
escritório se abriu e Michael entrou.
— Vamos, Sam. Estamos saindo para os
julgamentos.
— Não posso ir. Vou para a Filadélfia
agora mesmo – replicou em um fio de voz, totalmente desconcertado.
Michael fitou-o, estranhando.
— Filadélfia? Mas, você não tinha de ir
amanhã?
Sam mal podia responder, enquanto se
apressava em vestir o casaco.
— Michael, não posso lhe responder...
agora não. Cuide dos meus julgamentos, por
favor. Se você não puder, por favor, peça ao Jonathan ou a Shalma... eu...
tenho que ir.
— Espere, o que está acontecendo? –
Michael o deteve, assustado ao vê-lo assim.
— Não tenho tempo para falar agora, na
volta eu lhe conto – respondeu desesperado e sem querer falar mais do que
devia.
Sem esperar mais, precipitou-se para a
saída e pegou um táxi que o levou direto para o aeroporto. Enquanto voava para
a Filadélfia, não pode evitar derramar algumas lágrimas, ainda sem conseguir
compreender o muito que sua vida mudaria dali em diante.
Na delegacia da Filadélfia, Peter
Crowne indicara a Kate que ela se dirigisse ao Hospital Meison e procurasse
pelo Dr. John Trevolar. Uma vez na recepção do hospital, e depois de esperar
alguns poucos segundo, o médico apareceu.
— Bom dia. Meu nome é Kate Malcovich.
Estou aqui porque nos avisaram que nosso carro, um Mitsubishi, teve um
acidente. O carro está no nome do meu marido, Samuel Malcovich, e... e... não
posso dizer mais – Kate balbuciou, cada vez mais desconcertada. O que ela
estava fazendo ali?
— Por favor, acompanhe-me, Sra.
Malcovich – respondeu o médico com amabilidade.
Uma vez no consultório, Kate sentou,
aturdida, enquanto o médico folheava uma pasta.
— Cerca de onze e meia da noite houve
um acidente na autopista A-22, na direção da Filadélfia. Dentro do carro
viajavam quatro pessoas, duas mulheres e duas crianças. Os nomes das mulheres
são Natasha Ulchenka e Nicola Ulchenka Uldock. Você as conhece?
Sem entender nada, Kate assentiu
enquanto retorcia as mãos. Precisava saber por que o carro em que viajavam
aquelas mulheres estava no nome de Sam, assim que se limitou a assentir.
— Sim, são conhecidas nossas. O que
aconteceu?
O médico prosseguiu: — Também estavam
no carro duas crianças: Sasha e Tommy Uldock Malcovich.
Kate queria morrer. Conteve a
respiração e perguntou em um sussurro:
— Que nomes disse, Doutor?
Sem olhar para ela, o médico se limitou
a cumprir seu trabalho e repetiu:
— As crianças se chamam Sasha e Tommy
Uldock Malcovich.
Ao erguer os olhos dos papéis e ao ver
a palidez do rosto de Kate o médico esclareceu:
— O menino está fora de perigo, teve
apenas cortes e contusões. Tivemos de operar a perna da menina, estava
fraturada e foi preciso intervir cirurgicamente – e tomando ar, continuou: —
Quanto às mulheres que os acompanhavam, lamento informá-la que tiveram morte
instantânea.
— Meu Deus... – Kate gemeu, levando as
mãos à boca.
— Sinto muito, senhora – prosseguiu o
médico. – Mas devo pedir-lhe que identifique os cadáveres.
Kate negou com a cabeça e sentiu uma
náusea terrível. Mesmo assim, conseguiu balbuciar, a duras penas: — Não. Eu
não. Meu marido o fará quando chegar.
— Certo. Não se preocupe. Podemos
esperar.
Kate ainda não podia acreditar no que
estava ouvindo, parecia viver um pesadelo. O que significava tudo aquilo? E,
principalmente, porque aquelas crianças tinham o sobrenome de Sam? Sentia-se
incapaz de acreditar no que estava começando a suspeitar, e quis pensar que
todo se resolveria quando seu marido chegasse.
O médico aproximou-se dela.
— Lamento muito. Não foi possível fazer
nada por elas – Kate assentiu, abalada, e o médico prosseguiu. – Se quiser
posso levá-la para ver as crianças.
Kate aceitou, quase sem dar-se conta
que o fazia. Subiram em silêncio os três andares que os separavam da pediatria,
onde o médico lhe indicou que os pequenos estavam no quarto 326.
Como um autômato, Kate caminhou
lentamente por aquele corredor. Pensou mil vezes em dar a volta e regressar de
onde tinha vindo, e esquecer tudo, mas alguma coisa em seu interior não lhe
permitia e a arrastava irremediavelmente até aquele quarto. Ao chegar lá,
estendeu a mão e abriu a porta, incapaz de voltar recuar. Ali, diante dela,
estavam as duas crianças adormecidas em suas caminhas com barras nas laterais.
Com o coração na mão, aproximou-se até
uma das camas, onde estava o menino. Quietinho e adormecido. Tinha um enorme
curativo na testa e se viam vários pontos no pescoço, no rostinho e nos
bracinhos. Era igual a Sam. Mesmo sem poder ver a cor de seus olhos, Kate intuiu
que os tinha escuros como ele. Atormentada, olhou para a menina. Era loura e
tinha uma pele branquinha. Nada parecida com Sam. Durante um tempo observou-os
confusa, absorvida em um sem fim de pensamentos contraditórios, e quando não
pode mais, saiu em pânico do quarto. Do jeito que pode, saiu para a rua.
Precisava que o ar fresco do dia entrasse em seus pulmões. E, principalmente,
precisava chorar.
*Denominação do “Príncipe Encantado” em língua espanhola, numa referência ao caráter de realeza do personagem dos contos de fadas e, possivelmente, à expressão “sangue azul”. O termo é comumente usado para referir-se ao ideal de homem sonhado para marido.

Um comentário:
Fiquei morrendo de vontade de ler este livro onde posso consegui-lo mesmo em espanhol??? Já procurei e não consegui encontra-lo... Eliane
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