sábado, 15 de setembro de 2012

Degustação


Too Good to Be True
Kristan Higgins

Quando o ex-noivo de Grace Emerson começa a namorar sua irmã mais nova, são requeridas medidas extremas. Para que todos deixem de ficar obcecados com sua vida amorosa, Grace anuncia que está saindo com alguém. Alguém maravilhoso. Alguém bonito. Alguém completamente resolvido. Quem é esse Sr. Certo? Alguém exatamente... oposto ao seu rebelde vizinho Callahan O'Shea. Bem, alguém com sua aparência, talvez. Seu corpo sexy. Seu afiado senso de humor. Sua inteligência e grande coração.
Uau. Não. Callahan O'Shea não é o seu homem perfeito! Não com o seu desagradável passado. Então porque é que o Sr. Errado parece tão... certo?

PRÓLOGO 
Inventar um namorado não é novidade para mim. Vou ser direta de saída e admitir.  Algumas pessoas vão às compras por coisas que nunca poderiam pagar. Algumas olham fotos on-line de resorts que nunca irão visitar. E algumas pessoas imaginam que saem com um cara muito legal, quando, na verdade, elas não o fazem.
A primeira vez que isso aconteceu foi na sexta série. Recreio. Heather B., Heather F. e Jessica A. estavam na sua rodinha de popularidade. Elas usavam gloss labial e sombra de olhos, tinham bolsinhas fofas e namorados. Naquela época, sair com um menino queria dizer apenas que ele podia reconhecê-la ao passar no corredor, mas ainda assim, era um símbolo de status, e um que eu não tinha, junto com a sombra de olhos. Heather F. estava olhando para o seu cara, Joey Ames, enquanto ele colocava um sapo nas calças por razões claras apenas para garotos da sexta série, e falando que talvez ela romperia com Joey para sair com Jason.
E de repente, sem muita premeditação, eu vi a mim mesma dizendo que eu também estava saindo com alguém... um garoto de outra cidade. As três garotas populares viraram-se para mim com um repentino e grande interesse, e me encontrei falando de Tyler, que era realmente fofo, esperto e educado. Um cara mais velho, de quatorze anos. Além disso, a família dele possuía um haras e eles queriam que eu desse o nome para o novo potro, que eu estava treinando para que viesse até mim quando ouvisse o meu, e apenas o meu, assobio.
Seguramente, nós todas já viemos com um garoto assim. Certo? O que havia de mal em acreditar – quase – que em algum lugar lá fora, contrapondo-se aos tipos com sapos-nas-calças, existia um garoto como Tyler dos cavalos? Era quase como acreditar em Deus – você tinha que acreditar porque, qual era a alternativa? As outras meninas acreditaram naquilo, salpicaram-me de perguntas, olhando-me com um novo respeito.  Heather B. até me convidou para sua próxima festa de aniversário e eu alegremente aceitei. É claro, na ocasião, fui forçada a dividir a péssima notícia de que o haras de Tyler tinha incendiado e que a família se mudara para o Oregon, levando meu potro, Midnight Sun, com eles. Talvez as Heathers e o resto da minha classe imaginasse a verdade, mas eu descobri que realmente não importava. Inventar Tyler fez com que eu realmente me sentisse... ótima, na verdade.
Mais tarde, quando eu tinha quinze anos e nós mudamos de nossa humilde cidade de Mount Vernon, New York, para a muito sofisticada Avon, em Connecticut, onde todas as garotas tinham cabelo liso e os dentes muito brancos, inventei outro garoto. Jack, meu Namorado Volta ao Lar. Ah, ele era tão lindo (conforme provei com a foto na minha carteira, que tinha sido cuidadosamente recortada de um catálogo J. Crew). O pai de Jack era proprietário de um restaurante realmente belíssimo chamado Le Cirque (ei, eu tinha quinze anos). Jack e eu estávamos levando as coisas devagar... sim, nós nos beijávamos; na verdade, nós já tínhamos ido para a segunda base, mas ele era tão respeitoso que aquilo foi o mais longe onde chegamos. Queríamos esperar até que tivéssemos mais idade. Nós podíamos engravidar, quem sabe, e como sua família me amava tanto, eles fariam Jack comprar um anel da Tiffany para mim, não um diamante, mas talvez uma safira, tipo o da Princesa Diana, mas um pouco menor.
Desculpe dizer isso a você, mas eu terminei com Jack uns quatro meses depois de entrar no segundo ano, a fim de ficar disponível para os garotos da cidade. Minha estratégia saiu pela culatra... os garotos da cidade não estavam muito interessados em mim. Na minha irmã mais velha, definitivamente... Margaret me pegava de vez em quando, enquanto estava em casa, em férias da faculdade, e os garotos caiam mudos ante a mera visão de sua grande e fascinante beleza.
Mesmo minha irmã mais nova, que na época estava apenas na sétima série, já mostrava sinais de se tornar uma grande beleza. Mas eu fiquei avulsa, desejando que nunca tivesse terminado com meu namorado fictício, perdendo a onda quente de prazer que tinha ao imaginar um garoto que gostava de mim.
Então veio Jean-Philippe. Jean-Philippe foi inventado para fazer frente a um irritante, incrivelmente persistente garoto na universidade. Um estudante de química que, olhando para trás, provavelmente sofria de síndrome de Asperger, tornando-o imune a todas as nuances sociais que eu tentava lançar no seu caminho. Ao invés de dizer ao garoto, sem rodeios, que eu não gostava dele (isso parecia tão cruel) eu instruía minha colega de quarto para rabiscar recados e colá-los na porta, para que todos pudessem vê-los: "Grace- JP ligou de novo, quer que você de uma parada em Paris. Ligue logo para ele.”
Eu amava Jean-Philippe, amava imaginar algum francês bem vestido que tinha uma coisa comigo! Que ele rondava pelas pontes de Paris, olhando carrancudo para o Sena, com saudades de mim e suspirando melancolicamente enquanto comia croissants de chocolate e bebia um bom vinho.
Ah, eu tive uma queda por Jean-Philippe por anos, rivalizando apenas com o meu amor por Rhett Butler, que eu descobri aos treze anos e nunca mais deixei.
Durante todos os meus vinte, e mesmo agora com 30 anos de idade, inventar um namorado era uma técnica para sobreviver. Florence, uma das velhinhas da Golden Meadows Senior Village, recentemente ofereceu-me seu sobrinho durante a aula de dança de salão, que eu ajudo a ensinar. "Querida, você simplesmente vai amar Bertie!", ela soltou enquanto eu tentava fazer com que ela virasse a sua direita. "Posso dar-lhe o seu número? Ele é um médico. Um podólogo. Então, ele tem um pequeno problema. As garotas de hoje são muito exigentes. Na minha época, era um desastre se você tivesse 30 e fosse solteira. Só porque Bertie tem seios? E daí? Sua mãe era gorducha também, ah, ela era cheia...".
Veio à tona o namorado imaginário. "Ah, ele parece tão legal, Flo... mas eu comecei a sair com alguém. Drat."
Não é apenas com as pessoas ao meu redor, tenho que admitir. Eu uso o namorado de emergência quando... bem, digamos que como um mecanismo de enfrentamento, também.
Por exemplo, algumas semanas atrás eu estava dirigindo para casa em uma parte escura e isolada da Route 9, pensando no meu ex-namorado e sua nova amada, quando meu pneu estourou. Como é típico quando a morte passa roçando, milhares de pensamentos tornaram-se claros na minha mente, ao mesmo tempo que eu lutava com o volante, tentando não deixar o carro virar, e percebia que a voz distante gritando "Oh, Deus, Oh, Deus" era minha. Primeiro, eu não tinha nada para vestir em meu funeral (calma, calma, não quero virar o carro). Em segundo lugar, se caixão aberto fosse uma opção, eu esperava não estar com meu cabelo arrepiado durante a morte assim como esteve durante a vida (puxe mais forte, puxe mais forte, você está perdendo). Minhas irmãs ficariam devastadas, meus pais mudos de dor, suas críticas sem fim silenciadas pelo resto de seus dias (pise no acelerador, só um pouquinho, isso vai endireitar o carro). Deus do Céu, Andrew ficaria cheio de culpa! Para o resto de sua vida ele sempre estaria arrependido por ter me dado o fora (reduza a velocidade gradualmente agora, com os piscas, bom, bom, ainda estamos vivos).
Quando o carro ficou seguro no acostamento, fiquei sentada, tremendo incontrolavelmente, meu coração fazendo um barulho contra minhas costelas como uma janela aberta em meio a um furacão. "Jesus, Jesus, obrigada Jesus," eu cantava, tateando o meu celular.
Por azar, estava fora de área (é claro). Esperei uns momentos e então, resignada, fiz o que tinha de fazer. Saí do carro para o gelado aguaceiro de março e examinei o pneu arrebentado. Abri o porta-malas e tirei o macaco e o estepe. Embora eu nunca tivesse feito antes esta particular tarefa, eu resolvi isso enquanto os outros carros passavam voando por mim, encharcando-me às vezes com mais spray de gelo. Deu um apertão na mão, forte o suficiente para formar uma bolha de sangue, quebrei uma unha, arruinei meus sapatos e fiquei virada em lama e graxa.
Ninguém parou para me ajudar. Nem uma única maldita pessoa. Nem mesmo se importaram em dar uma freadinha. Praguejando, muito irritada com a crueldade do mundo e ligeiramente orgulhosa por ter trocado o pneu, voltei para dentro do carro, batendo os dentes, os lábios azuis pelo frio, molhada e suja. No caminho de volta, a única coisa que podia pensar era em um banho, um hot toddy, Project Runway e um pijama de flanela. Em vez disso, encontrei o desastre esperando por mim.
A julgar pelas evidências, Angus, meu West Highland Terrier, tinha mastigado o fecho de segurança para crianças da porta do armário recém pintado, arrastado para fora a lata de lixo, derrubado tudo e comido o frango que eu jogara fora naquela manhã. Não havia dúvida sobre isso, aparentemente. A galinha estava ruim. Meu pobre cão tinha, então, vomitado com tanta força, que as paredes da minha cozinha estavam salpicadas até o alto, tanto que um rastro de bile verde-amarelado manchava a face do meu relógio Fritz the Cat. Uma trilha de excrementos úmidos levava até a sala, onde encontrei Angus estendido na manta oriental que eu tinha acabado de lavar. Meu cachorro arrotou abominavelmente, latiu uma vez e abanou o rabo com um amor culpado em meio às poças fumegantes de vômito.
Nada de banho. Nada de Tim Gunn e Project Runway. Nada de hot toddy.
Então, o que isso tem a ver com outro namorado imaginário? Bom, enquanto eu esfregava o carpete com água e alvejante, tentando preparar Angus emocionalmente para o supositório que o veterinário me instruiu administrar, encontrei-me imaginando a seguinte alternativa.
Seguia para casa quando meu pneu estourou. Parei, peguei o celular, blá, blá, blá, ding, dong, bla, bla, bla. Mas, o que foi isso? Um carro diminuiu a velocidade e parou atrás do meu. Era, vamos ver, um híbrido não agressivo ao meio ambiente, e ah, tinha placas de médico. Um Bom Samaritano na forma de um homem alto e esguio, beirando os quarenta, aproximou-se do meu carro. Ele se abaixou. Olá! Lá estava ele... aquele momento em que você olha para alguém e simplesmente... bang! Você Simplesmente Sabe Que Ele É O Cara.
Em minha fantasia, aceitei o tipo de ajuda que o Samaritano oferecia. Dez minutos depois, ele tinha fixado o estepe no eixo, colocado o pneu estourado no porta-malas e me entregue seu cartão de visitas. Wyatt Alguma Coisa, Médico, Departamento de Cirurgia Pediátrica. Ah!
“Ligue-me quando chegar em casa, apenas para que eu saiba que o fez, certo?” ele perguntou-me, sorrindo. Bang! Ele rabiscou seu número de casa no cartão, enquanto eu embebia minha visão em suas atraentes covinhas e cílios longos.
Isto fez com que limpar o vômito ficasse muito mais agradável.
Obviamente que eu era muito consciente de que meu pneu não fora trocado pelo amável e bonito médico. Eu não disse a ninguém que ele o fez. Apenas um pouquinho de escapismo saudável, certo? Não, Wyatt não existia (eu sempre gostei desse nome, tão autoritário e nobre). Infelizmente um cara como ele era bom demais para ser de verdade. Eu não andava por aí falando do cirurgião pediátrico que trocou meu pneu, é claro que não. Não. Isso permaneceu firmemente particular, só um pequeno mecanismo de enfrentamento, como disse. Não inventava um namorado público em anos.
 Ou melhor, até recentemente.

CAPÍTULO UM

“E assim, com este ato, Lincoln mudou o curso da história americana. Ele foi uma das figuras mais menosprezadas na política de seu tempo, embora tenha preservado a União e seja considerado o melhor presidente que nosso país já teve. E possivelmente terá.”
Meu rosto resplandecia... nós acabávamos de iniciar nossa unidade sobre a Guerra Civil, e aquela era minha turma favorita para ensinar. Por azar, meus alunos estavam em meio ao coma de sexta-feira à tarde. Tommy Michener, um de meus melhores alunos na maioria dos dias, olhava ansiosamente para Kerry Blake, que se esticava de forma a, simultaneamente atormentar Tommy com o que ele não podia ter, e oferecê-lo a Hunter Graystone IV. Ao mesmo tempo, Emma Kirk, uma linda e bondosa garota que tinha a maldição de ser uma aluna diurna, e por isso era rejeitada pelas crianças legais, que todos abordavam, fixava o olhar na sua mesa. Ela tinha uma queda por Tommy e era muito consciente da obsessão dele por Kerry, pobre menina. “Então, quem pode resumir os diferentes pontos de vista? Alguém?”
Do lado de fora chegava o som de risadas. Todos olharam. Kiki Gomez, uma professora de inglês, estava com sua turma ao ar livre, já que fazia um dia ameno e encantador. Seus alunos não pareciam tontos e abatidos. Maldição. Eu deveria ter levado meus alunos para fora, também.
“Vou dar uma dica para vocês,” eu continuei, olhando para seus rostos inexpressivos. “Direito do Estado versus controle federal. União versus secessão. Liberdade para governar com independência versus liberdade para todas as pessoas. Escravidão ou sem escravidão. Soa familiar?
Nesse momento, tocaram as campanhias que marcavam o final do período e meus letárgicos alunos voltaram à vida enquanto corriam para a porta. Tentei não tomar isso como pessoal. Meus alunos eram geralmente mais interessados, mas era sexta-feira. Os garotos tinham sido abatidos com as provas do início da semana e havia um baile esta noite. Eu compreendia.
A Manning Academy era o tipo de escola preparatória que se espalhava por New England. Os majestosos prédios de tijolos com as indispensáveis heras, magnólias e cornisos, campos esmeralda de futebol e lacrosse, e uma promessa de que ao custo de uma pequena casa, nós daríamos a seus filhos a universidade de sua escolha - Princeton, Harvard, Stanford, Georgetown. A escola, que tinha sido fundada em 1880, era um pequeno mundo em si mesma. Muitos dos professores moravam no campus, mas os que não viviam lá, inclusive eu, ficavam normalmente tão pouco dispostos quanto os garotos, ávidos pelo final da última aula de cada sexta-feira à tarde, para que então pudéssemos ir para casa.
Exceto esta sexta-feira. Teria ficado mais feliz por estar na escola nesta sexta-feira, acompanhando as danças ou o treinamento de lacrosse. Ou diabos, a limpeza dos banheiros se fosse o caso. Qualquer coisa que não fosse minha programação real.
“Oi, Grace!” Kiki disse, surgindo em minha sala de aula.
“Oi, Kiki. Parecia que estava divertido lá fora.”
“Nós estávamos lendo O Senhor das Moscas,” ela informou.
“É claro! Não me admiro que estivessem rindo. Nada como uma matança de porquinhos para alegrar o dia.”
Ela sorriu orgulhosa. “Então, Grace, encontrou alguém para lhe acompanhar.”
Fiz uma careta. “Não. Não encontrei. Isto não vai ser agradável.”
"Oh, merda", ela disse. "Sinto muito.”
"Bom, não é o fim do mundo," murmurei bravamente.
“Você tem certeza?” Como eu, Kiki era solteira. E ninguém melhor que uma mulher solteira de trinta e poucos anos para saber o inferno que era ir sem par a um casamento. Dentro de poucas horas, minha prima Kitty, que uma vez cortou minha franja até a raiz quando eu estava dormindo em sua casa, iria se casar. Pela terceira vez. Com um vestido estilo Princesa Diana.
“Olha, é o Eric!” Kiki exclamou, apontando para minha janela. “Oh, obrigada Deus!”
Eric era o homem que lavava as janelas da Manning Academy a cada primavera e outono. Embora fosse apenas início de abril, a tarde estava quente e amena, e Eric estava sem camisa. Ele sorriu para nós, muito consciente de sua beleza, pulverizou e passou o rodo.
"Pergunte a ele!" Kiki sugeriu enquanto nós o encarávamos com grande apreciação.
“Ele é casado,” eu disse, sem tirar os olhos dele. Comer Eric com os olhos era o mais perto da intimidade que eu tinha tido com um homem há algum tempo.
“Felizmente casado?” Kiki perguntou, sem remorso por destruir um lar ou dois para pegar um homem.
"É sim. Ele adora sua esposa."
"Eu odeio isso," ela murmurou.
"Eu sei. Tão injusto."
A perfeição masculina que era Eric piscou para nós, atirou um beijo e voltou a arrastar o rodo outra vez sobre a janela, os ombros musculosos se encolhendo lindamente, o tanquinho do seu abdômen ondulando, a luz do sol brilhando em seu cabelo.
“Eu devia começar a me mexer,” eu disse, sem mover um músculo. “Tenho de me trocar e outras coisas.” O pensamento fez meu estômago ter um espasmo. “Kiki, você tem certeza que não conhece ninguém que eu possa levar? Qualquer um? Eu realmente, realmente não quero ir sozinha.”
"Não conheço, Grace," ela suspirou. "Talvez você devesse contratar alguém, como no filme da Debra Messing."
"Esta é uma cidade pequena. Um gigolô provavelmente iria se destacar. Alem disso, provavelmente não seria bom para a minha reputação. ‘Professora da Manning Contrata Garoto de Programa. Pais Aflitos’. Esse tipo de coisas.”
“E que tal Julian?” ela perguntou, mencionando meu velho amigo, que geralmente saia com Kiki e eu em nossas noites de meninas.
“Bem, minha família o conhece. Ele não passaria.”
"Como um namorado ou como um cara hetero?”
"Ambos, eu acho", lhe disse.
“Que pena. Ao menos ele é um ótimo dançarino.”
“Isso ele é.” Dei uma olhada para o relógio e o fio de pavor que esteve jorrando intermitentemente durante toda a semana transformou-se em um rio. Isso não tinha a ver apenas com o casamento da velha Kitty. Eu estaria encontrando Andrew pela terceira vez desde que rompemos, e ter um acompanhante deveria definitivamente ajudar.
Bem. Tanto quanto eu desejava, eu poderia apenas ficar em casa, lendo  E O Vento Levou ou assistindo um filme, do que ter de ir. Por outro lado, eu estava muito parada ultimamente. Meu pai, meu melhor amigo gay e meu cachorro, embora fossem ótimas companhias, provavelmente não deveriam ser os únicos homens na minha vida. E sempre existia a microscópica chance de eu conhecer alguém nesse casamento.
"Talvez Eric vá," Kiki disse, apressando-se até a janela e puxando para abri-la. "Ninguém tem de saber que ele é casado."
"Kiki, não," protestei.
Ela não escutou. "Eric, Grace tem que ir a um casamento esta noite, e seu ex-noivo vai estar lá, e ela não tem um acompanhante. Você poderia ir com ela? Fingir que a adora e essas coisas?"
"Obrigada de qualquer modo, mas não," eu disse, meu rosto pinicando com o calor.
"Seu ex, heim?" disse Eric, enxugando uma vidraça limpa.
"É. Eu posso cortar meus pulsos agora mesmo." Sorri para mostrar que não falava a sério.
"Você tem certeza que não pode ir com ela?” Kiki perguntou.
"Minha esposa provavelmente teria um problema com isso" respondeu Eric. "Desculpe, Grace. Boa sorte."
"Obrigada," disse-lhe. "Parecer pior do que realmente é."
"Ela não é valente?" Kiki perguntou. Eric concordou que eu era e deslocou-se para a próxima janela, Kiki a ponto de cair pela janela para vê-lo sair. Ela arrastou-se para trás com um suspiro. "Então você vai sozinha," disse no mesmo tom que um médico usaria para dizer, sinto muito, é terminal.
"Bom, eu tentei, Kiki," lembrei-a. "Johnny que entrega pizza vai ter um encontro Alho e Anchovas, se você puder acreditar nisto. Brandon, da casa de repouso, disse que se enforcaria antes de ser par de alguém em um casamento. E acabei de saber que o cara fofo da farmácia tem apenas dezessete anos de idade e apesar de ele ter dito que adoraria ir, Betty, a farmacêutica, é sua mãe e mencionou alguma coisa sobre a Lei Mann e predadoras, assim que, a partir de agora, vou terei de ir ao CVS, em Farmington."
"Oops," disse Kiki.
"Não é grande coisa. Eu irei sozinha, serei nobre e valente, vou escanear a sala em busca de uma transa e irei embora com um garçom. Se eu estiver com sorte.” Eu sorri. Corajosamente.
Kiki deu uma risada. "Merda de estar solteira," ela anunciou. "E Deus, estar solteira em um casamento...” Ela estremeceu.
"Obrigada pelo incentivo," respondi.

QUATRO HORAS MAIS TARDE, eu estava no inferno.
A combinação muito familiar e um pouco enjoativa de esperança e desespero revolvia meu estômago. Honestamente, eu pensava que estava agindo muito bem naqueles dias. Sim, meu noivo tinha me dado o fora quinze meses atrás, mas eu não estava caída pelo chão em posição fetal, chupando o polegar. Eu fui trabalhar e dar minhas aulas... muito bem, em minha opinião. Eu saí socialmente. É claro, a maioria de minhas saídas eram mesmo para dançar com cidadãos mais velhos ou recriar as batalhas da Guerra Civil, mas eu saí. E, sim, eu ficaria (teoricamente) encantada em encontrar um homem – um tipo Atticus Finch combinado com Tim Gunn, com a aparência de George Clooney.
Então aqui estava eu, em outro casamento – o quarto casamento na família desde O Fora, o quarto casamento na família em que eu estava desacompanhada – corajosamente tentando irradiar felicidade enquanto meus parentes se penalizavam comigo e tentavam arrumar-me um primo distante de aparência estranha. Ao mesmo tempo, eu tentava aperfeiçoar O Olhar – divertida ironia, satisfação interior e absoluto conforto. Uma espécie de 'Oi! Estou perfeitamente bem por estar sozinha em, ainda, outro casamento e não estou totalmente desesperada por um homem, mas se acontecer dele ser hetero, com menos de quarenta e cinco, atraente, com segurança financeira e moralmente correto, vamos lá!'  Uma vez que consegui dominar O Olhar, planejei arrasar, já que requeria apenas o mesmo nível de habilidade.
Mas quem sabe? Talvez hoje meus olhos batessem em alguém, alguém que fosse também solteiro e cheio de esperança, sem ser patético - digamos que um cirurgião pediátrico, apenas em amor ao argumento e, bang! Nós apenas saberíamos.
Infelizmente, meu cabelo estava fazendo eu parecer, no melhor dos casos, uma linda e destemida cigana, mas era mais provável que eu estivesse mais para Gilda Radner. Devia lembrar de chamar um exorcista para ver se ele podia enxotar os demônios do mal do meu cabelo, que eram conhecidos por partir ao meio os pentes e comer escovas de cabelo.
Hmm. Havia um cara bonitinho. Intelectual, magro, de óculos, sem dúvida o meu tipo. Então ele viu minha olhada e imediatamente tateou atrás de si mesmo, buscando por uma mão que estava ligada a um braço, que estava ligado a uma mulher. Ele sorriu para ela, deu-lhe um beijo nos lábios e lançou um olhar nervoso em minha direção, Certo, certo, não precisa entrar em pânico, senhor, eu pensei. Mensagem recebida.
De fato, todos os homens abaixo dos quarenta pareciam estar comprometidos. Havia muitos octogenários presentes, um deles estava sorrido para mim. Hmm. Oitenta era muito velho? Talvez eu devesse buscar por um homem mais velho. Talvez eu estivesse perdendo tempo com homens que ainda tinham próstatas funcionando e joelhos originais. Talvez houvesse algo a ser dito por um coroa rico. O velho ergueu suas espessas sobrancelhas brancas, mas seu exercício para eu ser sua doce jovenzinha acabou abruptamente quando sua esposa deu-lhe uma violenta cotovelada e me dirigiu um olhar de desaprovação.
"Não se preocupe, Grace. Logo será sua vez," uma tia soltou em sua voz de sirene.
"Nunca se sabe, tia Mavis," respondi com um sorriso doce. Era a oitava vez nesta noite que ouvia tal consolo, e eu já estava considerando que teriam tatuado isso na minha testa. Eu não estava preocupada. Em breve seria minha vez.
"É difícil, vê-los juntos?" Mavis ladrou.
"Não. Não, de jeito nenhum," menti, sem deixar de sorrir. "Estou muito feliz por eles estarem saindo." Claro que feliz podia estar sendo um exagero, mas mesmo assim. O que mais eu podia dizer? Era complicado.
“Você é corajosa,” Mavis disse. "Você é uma mulher corajosa, Grace Emerson." E então ela se afastou, em busca de alguém mais para atormentar.
"Certo, então desabafe," minha irmã Margaret exigiu, debruçando-se sobre minha mesa. "Você está procurando por um instrumento bem afiado para poder cortar seus pulsos longe de todos? Pensando em aspirar um pouco de monóxido de carbono?"
"Ah, ouça só, a grande tola. Sua preocupação fraternal traz lágrimas aos meus olhos.”
Ela sorriu. "Bem? Conte para sua irmã mais velha."
Tomei um grande gole do meu gim-tônica. "Estou um pouco cansada das pessoas dizendo o quanto eu sou corajosa, como se eu fosse um mariner que pulou sobre uma granada. Estar solteira não é a pior coisa do mundo."
"Eu gostaria de estar solteira todo o tempo," respondeu Margs enquanto seu marido se aproximava.
"Ei, Stuart!" Disse-lhe com carinho. "Não vi você na escola hoje.” Stuart era o psicólogo da Manning e foi quem me avisou da vaga no departamento de história, há seis anos atrás. Ele meio que vivia o estereótipo... camisas oxford por baixo de coletes argyle, mocassins com franjas e a indispensável barba. Um gentil e tranquilo homem, Stuart conhecera Margaret na pós-graduação e era seu devotado servo desde então.
"Como você está se mantendo, Grace?" ele perguntou, entregando-me uma nova versão da bebida que era minha marca registrada, um gin-tônica com limão.
"Estou ótima, Stuart," respondi.
"Oi, Margaret, oi, Stuart!" Chamou minha tia Reggie desde a pista de dança. Então ela me olhou e congelou. "Oh, oi, Grace, você não parece muito bem. E queixo para cima, querida. Você estará dançando em seu próprio casamento em um dia bem próximo.”  
"Nossa, obrigada, tia Reggie," eu respondi, dando um olhar significativo para minha irmã. Reggie deu-me um sorriso triste e afastou as fofocas.
"Continuo achando isso monstruoso," Margs disse. "Como Andrew e Natalie podem sequer... Jesus bondoso e Sua coroa de espinhos! Não consigo compreendê-los. Onde eles estão, afinal?"
"Grace, como está você? Você está apenas fazendo uma cara boa, querida, ou realmente está bem?" Essa veio de Mamãe que agora se aproximava de nossa mesa. Papai, empurrando a mãe idosa em sua cadeira de rodas, seguia mais atrás.
"Ela está bem, Nancy!" Ele vociferou. "Olhe para ela! Não parece estar ótima para você? Deixe-a em paz! Não fale nisso."
"Cale-se, Jim. Eu conheço minha criança, e esta está sofrendo. Um bom pai pode dizer." Ela dirigiu-lhe uma olhada gelada e significativa.
"Bom pai? Eu sou um ótimo pai," Papai rebateu.
"Estou bem, Mamãe. Papai tem razão. Estou me sentindo ótima. Ei, Kitty não está ótima?"
"Quase tão bonita quanto no seu primeiro casamento," disse Margaret.
"Você viu Andrew?" Mamãe perguntou. "Está difícil, querida?"
"Estou bem," repeti. "De verdade. Estou ótima."
Mémé, minha avó de noventa e três anos de idade, sacudiu o gelo do seu copo de whisky. "Se Grace não consegue segurar um homem, vale tudo no amor e na guerra."
"Está viva!" disse Margaret.
Mémé a ignorou, fitando-me com os olhos remelentos, depreciativos. "Nunca tive problemas em encontrar um homem. Os homens me amavam. Eu fui bastante bonita nos meus dias, você sabe."
"E continua sendo," disse-lhe. "Olhe para você! Como você faz isso, Mémé? Você não parece ter mais que cento e dez anos."
"Por favor, Grace," meu pai murmurou com cansaço. "Isso é jogar gasolina no fogo."
"Ria se quiser, Grace. Pelo menos meu noivo nunca rompeu comigo." Mémé engoliu o resto do seu Manhattan e estendeu o copo para Papai, que o pegou obedientemente.
"Você não precisa de um homem," disse Mamãe com firmeza. "Nenhuma mulher precisa." Ela repetiu a olhada significativa para meu pai. 
"O que devo supor que isso significa?" espetou Papai.
"Isto significa o que significa," Mamãe disse com a voz carregada.
Papai revirou os olhos. "Stuart, vamos pegar outra rodada, filho. Grace, dei uma passada em sua casa hoje e vi que você realmente precisa de novas janelas. Margaret, bom trabalho no caso Bleeker, querida.” Este era o jeito de Papai congestionar uma conversa, tanto quanto fosse possível, e com isso poder ignorar minha mãe (e a dele). "E, Grace, não se esqueça do Bull Run no próximo fim de semana. Nós somos Confederados."
Papai e eu fazíamos parte do Brother Against Brother, o maior grupo de recriadores da Guerra Civil em três Estados. Você já nos viu... Somos os estranhos que se vestem para desfiles e batalhas de palco, em campos e parques, atirando uns nos outros e caindo no chão em deliciosa agonia. Apesar do fato de Connecticut não ter visto muita ação durante a Guerra Civil (infelizmente), nós, os fanáticos do Brother Against Brother ignorávamos esse fato inconveniente. Nossa programação começava no início da primavera, quando se realizavam algumas batalhas locais e, em seguida, passávamos para os locais reais, em todo o Sul, juntando-nos com outros grupos recriadores para desfrutar de nossa paixão. Você ficaria surpreso com os muitos de nós que existiam.
"Seu pai e essas batalhas idiotas," murmurou Mamãe, ajustando o colarinho de Mémé. Mémé aparentemente tinha caído profundamente adormecida, ou morrera... mas não, o peito magro estava subindo e descendo. "Bem, eu não vou, é claro. Preciso me concentrar em minha arte. Você virá para o show desta semana, não é?"
Margaret e eu trocamos olhares desconfiados e fizemos sons evasivos. A arte de mamãe era um assunto que era melhor deixar intocado.
"Grace!" Mémé ladrou de repente, saltando de volta à vida. "Chegue lá! Kitty vai para jogar o buquê! Vá! Vá!" Ela girou a cadeira de rodas e começou a abalroá-la em minhas canelas, tão implacável quanto Ramsés caindo sobre o escravos hebreus que fugiam.
"Mémé! Por favor! Você está me machucando!" Eu tirei minhas pernas do caminho, o que não a deteve.
"Vá! Você precisa de toda a ajuda que puder conseguir!"
Mamãe revirou os olhos. "Deixe-a sozinha, Eleanor. Você não pode ver que ela está sofrendo o bastante? Grace, querida, você não tem que ir se isso te faz triste. Todo mundo vai entender."
 "Eu estou bem," disse em voz alta, passando a mão pelo meu cabelo incontrolável, que tinha estourado os grampos. "Eu vou." Porque diabos, se eu não fosse, seria pior. Pobre Grace, olhem para ela, ela está sentada exatamente como um gambá morto na estrada, não pode nem sair de sua cadeira. Além disso, a cadeira de Mémé estava começando a deixar marcas em meu vestido.
Fui para a pista de dança tão animada quanto Ana Bolena em seu caminho para a forca. Tentei ficar misturada com as outras ovelhas, em pé, na parte de trás, onde eu não teria realmente uma chance de pegar o buquê. "Cat Scratch Fever" veio crescendo pelo aparelho de som, de modo elegante, e eu não pude suprimir uma risadinha.
Então eu vi Andrew. Olhando diretamente para mim, culpado como o pecado. Seu par não estava em nenhum lugar à vista. Meu coração deu uma guinada.
Eu sabia que ele estava aqui, é claro. Ele vir foi ideia minha. Mas vê-lo, sabendo que estava com outra mulher, hoje em sua primeira aparição como um casal, fez minhas mãos suarem, meu estômago virar gelo. Andrew Carson era, afinal, o homem com quem pensei que me casaria. O homem que dentro de três semanas se casaria. O homem que me deixou porque se apaixonou por outra pessoa.
Um par de anos atrás, no casamento da prima em segundo grau de Kitty, Andrew tinha vindo como meu acompanhante. Nós ficamos juntos por um tempo, e quando foi a hora de jogar o buquê, então, eu estava mais ou menos feliz, fingindo estar envergonhada, mas com a satisfação presunçosa de ter um namorado firme. Eu não peguei o buquê, e quando deixei a pista de dança, Andrew colocou o braço em volta do meu ombro. "Eu pensei que você poderia ter se esforçado um pouco mais lá," ele disse, e eu lembrei da emoção que aquelas palavras tinham causado.
Agora ele estava aqui com sua nova namorada. Natalie, de longos e lisos cabelos loiros. Natalie, de pernas intermináveis. Natalie, a arquiteta.
Natalie, minha muito adorada irmã mais nova, que estava compreensivelmente mantendo-se oculta neste casamento.
Kitty jogou o buquê. Sua irmã, minha prima Anne, o apanhou, como planejado e ensaiado, sem dúvida. A hora da tortura acabara. Mas, não. Kitty me viu, pegou suas saias e soltou mais uma vez. "Logo será a sua vez, Grace," anunciou em voz alta. "Você está se segurando bem, certo?"
"Claro," eu disse. "É um déjà vu, tudo de novo, Kitty! Outra primavera, um outro casamento seu."
"Pobrezinha de você." Ela deu um aperto firme em meu braço, a simpatia presunçosa escorrendo por ela, olhando para minha franja (sim, elas tinham crescido durante os quinze anos que se passaram desde que ela as cortara) e voltou para o seu noivo e os três filhos de seus dois primeiros casamentos.

TRINTA E TRÊS MINUTOS MAIS TARDE, eu decidi que já tinha sido corajosa o suficiente. A recepção de Kitty estava em pleno andamento, e enquanto a música estava alegre e meus pés ansiosos para chegar lá e mostrar à multidão como uma rumba devia parecer, eu decidi ir para casa. Se havia aqui um único homem de boa aparência, financeiramente seguro e emocionalmente estável, ele estava escondido debaixo de uma mesa. Uma parada rápida e eu estaria no meu caminho.
Abri a porta, dei uma olhada rápida e horripilante no espelho – nem mesmo eu sabia que era possível meu cabelo ficar mais arrepiado, Santo Guacamole, ele estava praticamente na horizontal – e comecei a empurrar a porta, quando ouvi um pequeno ruído. Um som triste. Olhei por baixo da porta. Sapatos legais. Tiras, saltos altos, couro azul.
"Hum... está tudo bem?" perguntei, franzindo a testa. Esses sapatos pareciam familiares.
"Grace?" Veio uma voz pequena. Não admira que os sapatos parecessem familiares. Minha irmã mais nova e eu tínhamos comprado juntas, no último inverno.
"Nat? Querida, você está bem?
Houve um farfalhar e então minha irmã abriu a porta. Ela tentou sorrir, mas seus olhos azuis estavam molhados de lágrimas prateadas. Notei que o rímel não se dignou a escorrer. Ela parecia trágica e linda, Ilsa dizendo adeus para Rick no Aeroporto de Casablanca.
"O que há de errado, Nat?" perguntei.
"Oh, não é nada...." Sua boca tremeu. "Está tudo bem."
Fiz uma pausa. "Tem algo a ver com o Andrew?"
A boa fachada de Natalie vacilou. "Hum... bem... Eu não acho que isso entre nós vá funcionar," ela disse, sua voz falhando um pouco, dando-lhe distanciamento. Ela mordeu o lábio e olhou para baixo.
"Por quê?" Eu perguntei. Alívio e preocupação lutaram em meu coração. De acordo, com certeza não iria morrer se Nat e Andrew não dessem certo, mas não era típico de Natalie ser melodramática. Na verdade, a última vez que a vi chorar foi quando eu fui para a faculdade há 12 anos atrás.
"Hum... é apenas uma má ideia," ela sussurrou. "Mas está tudo bem."
"O que aconteceu?" perguntei. A vontade de estrangular Andrew queimava em meu estômago. "O que ele fez?"
"Nada," ela me assegurou apressadamente. "É apenas... um..."
"O que?" Eu perguntei de novo, com mais força desta vez. Ela não olhava para mim. Ah, dane-se tudo. "É por minha causa, Nat?"
Ela não respondeu.
Eu suspirei. "Nattie. Por favor, responda-me."
Seus olhos correram para mim, depois deslizaram para o chão novamente. "Você não superou ele, não é?" ela sussurrou. "Mesmo que você tenha dito que sim... Eu vi seu rosto lá fora, no lance do buquê, e, oh, Grace, eu sinto tanto. Eu nunca deveria ter tentado –"
"Natalie" eu interrompi: "Eu superei ele. Eu juro."
Ela me deu um olhar carregado de tanta culpa, miséria e genuína angústia que as próximas palavras saíram da minha boca, sem eu estar plenamente consciente delas. "A verdade Nat, é que estou saindo com alguém."
Oops. Eu realmente não tinha planejado dizer isso, mas funcionou como um encanto. Natalie piscou para mim, mais duas lágrimas escorregaram por suas bochechas de pétalas de rosas, a esperança surgindo em seu rosto, os olhos se arregalando. "Você está?" ela disse.
"Sim" eu menti, pegando um lenço para enxugar seu rosto. "Faz algumas semanas, agora."
A trágica expressão de Nat estava desaparecendo. "Por que você não o trouxe hoje à noite," ela perguntou.
"Oh, você sabe. Casamentos. Todo mundo fica muito animado se você aparece com alguém."
"Você não me contou," disse ela, uma carranca leve vincando a testa.
"Bem, eu não queria dizer nada até eu saber que ia valer a pena mencionar." Eu sorri novamente, esquentando com a ideia – como nos velhos tempos – e desta vez, Nat sorriu de volta.
"Qual é o nome dele?" ela perguntou.
Fiz uma pausa por um breve segundo. "Wyatt," respondi, lembrando minha fantasia da troca de pneu. "Ele é um médico."

Nenhum comentário:

Runescape Book