segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Cantinho da Maria


Amantes... meus! 

  Irrompi por ali adiante como qualquer viciado numa roleta dos cassinos. 
  Sem olhar para os lados, avancei com passos largos, decidida, pelo corredor amplo ladeado por expositores. 
  A iluminação é forte e conduz-me diretamente ao meu objetivo. 
  Ao fundo. À direita!
  Ao fundo, vários olhares enfileirados me prendem, cheios de promessas e o meu corpo é percorrido por um arrepio de antecipação. 
  As roupagens com que se adornam têm os mais diversos tons e motivos, todas com a mesma finalidade. 
  Cativar- me.



  
  Olho um pouco desorientada pela variedade das propostas
que me são feitas. 
  
  Em piscares discretos,
em olhares nada discretos, em convites descarados,
formais, impúdicos,
todos se consomem e mergulham em palavras
que contêm 
a mesma mensagem:


“A tua felicidade está na minha mão!”

  Avanço ávida, chego mais perto, varro com o olhar o máximo de espaço e um maior número de candidatos.
  Estico as mãos sôfregas, passo as mãos pelos seus segredos, mergulho fundo no desconhecido tentando de alguma forma adivinhar o que me querem propiciar. 

 Ahhh..., um ali, mais vivo, de cores fortes a convidar-me para descobertas apaixonantes. 
  Viro-o. Percorro-o com dedos sensíveis, tateio com um indicador os seus revelos e logo, palpitante, relanço os olhos e novas propostas me são feitas, novas promessas sussurradas, novos sabores desconhecidos, novas praias, hipoteticamente novas frases, novos contornos e estilos, novos rumos.

Hesito de novo, com alguma angústia. Não posso levar todos.
Cinco? Uma decisão impossível!
Quatro? Difícil.
Três? Suportável.
Dois? Aceitável. 
Um, o ideal. 
Carrego o sobrolho, faço planos, orçamentos, contabilizo perdas e ganhos, antecipo… e regresso, ruborizada pelo esforço.

  Mais calma, lanço-lhe a mão, leio as entrelinhas, abraço-o contra o peito dilatado, dou-lhe o braço num aconchego, afago amorosamente as suas arestas, realizo as minhas obrigações e partimos à desfilada, ansiosos pela privacidade.

  Chegámos. Instalo-me no jardim, ao som balanceado das folhas do pessegueiro carregado de folhas e de pêssegos, agarro o objeto do meu desejo desvairado e… começo a ler.






 
        Maria

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