sexta-feira, 13 de abril de 2012

Cantinho da Maria


Pelas sugestões da Karlinha, fiquei a saber que dentro em breve teremos mais um livro da série Sombria, de Christine Feehan. Ótimo, eu gosto!

Hoje, para quem tiver paciência em me acompanhar, faço um convite: Viajar comigo em minhas memórias e descobrir por que me reconciliei com os vampiros a partir desta série.

Há uns anos, não digo quantos, menina e moça, viajei até França com os meus pais e um grupo de pessoas conhecidas. A zona era rural, perdida entre os vinhedos que brindam os franceses com os tintos maduros de Bordeaux. Uma noite, de visita a uns familiares, passava na televisão um filme em preto e branco de uma versão do Drácula, personagem muito sinistra nos filmes dessa época. Parece-me que era a versão de Bram Stoker.
O filme, na época, me causou tal terror que nessa noite não consegui dormir em minha cama, e já era uma adolescente bem grandinha que sempre dormira sozinha. Essa noite, houve uma cama que tremia tanto como quem a ocupava de pés gelados e coração sobressaltado. Não sei se as corujas nessa noite resolveram fazer uma caçada mais barulhenta, ou os morcegos algum vôo mais rasante, mas que eu ouvia o chiado deles, os estalinhos na madeira e o bater dos galhos nas janelas. Eu juro que ouvia, e todos eram mal intencionados! Muito  assuntada, perdi a vergonha e corri literalmente para a cama de uma das nossas amigas, dando a desculpa de que estava tremendo com o frio… Mentira… estava tremendo de medo, porque, na minha imaginação fértil, aquele pesadelo vinha abocanhar o meu rico pescocinho! A partir dessa noite insone, decidi que… vampiros? Nem no cinema!

Mais tarde, vi a segunda geração na sua fase gótica mergulhando na Anne Rice. Os vampiros passaram a ser moldados em Tom Cruise e Brad Pitt e achei que eu era muito preconceituosa. Relutante, lá fui espreitar a vampirada dela. Nah!!! O meu espírito decididamente ainda não se tinha restabelecido daquele encontro tão funesto! As vítimas ainda eram vítimas e a chupadelas nada tinham de romântico. 

Um daqueles dias em que estás numa de ler seja o que for, descarreguei num blog de e-books um título sugestivo: Príncipe Sombrio. “Bom”, pensei, “Príncipe é Príncipe e Sombrio deve ser um personagem mal-humorado ganhando uma lição de humildade. OK, serve para passar a tarde”. Sentei-me comodamente e fui desfilando lentamente pelas páginas sombrias do enredo. Descobri um príncipe lutando contra a sua escuridão e a da sua raça, numa procura insana pela luz que lhes daria esperança. Quando cheguei àquela parte em que o homem era Cárpato, já me tinha apaixonado por tanta infelicidade. Roubar um pouco de suco vital era aceitável, sensual, e a raça tinha de ser resgatada! O Mikhail Dubrinsky não era um pesadelo juvenil, a Raven tinha garra, sim senhor!, para o trazer pelo laço, todos tinham direito à vida, os vampiros ainda eram para deitar abaixo a qualquer custo e Christine Feehan tinha mais uma fã!
 
 A autora constrói seres ligados à terra, ancestrais, poderosos em termos de magia, mas que, apesar do seu poder, sofrem; o sofrimento de Jacques é pungente, goteja em cada página do livro (Desejo Sombrio). Lutam contra a sua própria escuridão, a incompreensão do mundo moderno, que os quer caçar, e contra os seus pares que perderam a esperança e as forças, na busca de emoções ou poder (Xavier). Apesar de os ambientes serem escuros, as noites são poéticas, cheias de magia e sentimento; a proteção das companheiras raia a obsessão, até porque o seu encontro está destinado, é etreno e único… «Os companheiros estão destinados a encontrar-se, Shea. Só existe um companheiro para cada pessoa.»… Mas quem não gostaria de ter seres assim de poderosos e magníficos a dizer as palavras do ritual de acasalamento que, de tão fortes, a própria natureza conspira, as tece e 
as consagra.
«Eu te reclamo como minha companheira. Pertenço-te. Ofereço-te minha vida. Dou-te meu amparo, minha fidelidade, meu coração, minha alma e meu corpo. Para compartilharmos tudo. Sua vida, sua felicidade e seu bem-estar serão os primeiros para mim. É minha companheira, unida a mim para toda a eternidade e sempre sob meu cuidado». (Ritual  Carpato)


As histórias de cada casal são diferentes, cada qual com as suas fraquezas e inseguranças, uns personagens mais carismáticos (Gregori) e imponentes do que outros (Jacques, Darius, Gabriel e Lucien, Virnikoff, Razvan), mas com alguns livros espetaculares (Desejo Sombrio, Lenda Sombria, Demónio  Sombrio, Assassina Sombria), na minha modesta opinião. Há uma continuidade na série desde o primeiro volume, a escuridão e o desespero em que vive cada Cárpato até encontrar a sua companheira, e as emoções, que  os arrancarão de um mundo cinzento e sem cores, o amor e a devoção. A raridade das mulheres e crianças  cárpatas leva a que humanas com dons psíquicos sejam compatíveis para a conversão que lhes vai permitir viver no seu mundo e gerar os seus filhos. É comovente ver, apesar de serem muito possessivos, como se apaixonam de forma incondicional e têm atitudes cheias  de romantismo. A possessividade que revelam não é  mais do que terror absoluto de perderem as suas companheiras e a luz que lhes restituiu as emoções perdidas, e uma obrigação  de as proteger que respeitam, acima da própria vida. «Sua angústia lhe golpeou com uma força incrível. Ele era, depois de tudo, um homem dos Cárpatos. Sua primeira obrigação era sempre proteger a mulher, ainda com risco de sua própria a vida» (Desejo Sombrio). 


Acontecem batalhas épicas com os vampiros, (cárpatos que desistiram e se tornam maléficos à procura das suas emoções através do terror das vítimas) em que os próprios elementos da natureza são manipulados e se tornam aliados; curas realizadas a partir do interior, onde o cárpato curador  penetra sob a forma de luz; cenas de amor  eróticas, tórridas mesmo, em que o casal partilha a mente de cada um e sente o prazer do companheiro… mais não digo, leiam!

 Eu reconciliei-me com um tipo de personagens aos quais tinha virado as costas há muito tempo, precisamente pela mão dos Cárpatos de C. Feehan. 

Maria Carmo

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